O vôo das nove e meia

São sete e quarenta e três e o vôo dela é às nove e meia.

nina

Tento falar com ela. Não consigo. Nós passamos três anos juntos, tão juntos quanto era possível. Não fomos almas gêmeas. Nós dividimos a mesma alma.

Lá fora, um grupo joga num tabuleiro. Falam alto. Estão felizes. Provavelmente neste momento não pensam ser possível uma dor tão desumana quanto a que sinto. Será que eu já estive jogando enquanto alguém sentia uma dor dessas? Claro que sim. E como essa pessoa teria passado por essa dor? Será que passou?

Esse monstro que passeia no meu peito não parece fácil de matar. A experiência diz que passa, meu menino, um dia passa essa dor. Mas o monstro parece mais forte que nunca. Talvez eu jamais possa mata-lo; apenas domá-lo.

E penso nela. Penso em ir pegar minhas coisas no apartamento onde moramos por dias felizes, por dias tristes, por dias tensos. Por dias em que ela foi a luz. Por outros em que ela foi a escuridão. Foi mais luz? Mais escuridão? Com certeza foi mais luz. Muito mais. É que, na incansável busca humana pela felicidade, a escuridão parece muito grande. Só luz não serve. Somos gulosos. Precisamos de mais, mais, mais. Sempre precisamos de mais felicidade do que temos. De mais luz. De brilho. De fogos de artifícios.

Eu ouvi de um grande mestre de ioga, certa vez, que a mente é ávida por problemas. Não é um erro. É uma característica humana. Nós vivemos em sociedades civilizadas há muito pouco tempo. Nossa “programação” ainda nos ensina a prestar atenção lá fora, pois um leão pode nos atacar a qualquer momento. Se esse leão não vem, nós encontramos outro foco para esse instinto. Onde tem um problema? Um problema pelo amor de Deus! Alguém me arruma um problema!

Volto a ela. Só de pensar em buscar minhas coisas naquele apartamento vazio, me dá calafrios. Não sou capaz. Vou deixar lá. Quem sabe o próximo morador faça uso.

Mas não é o apartamento que me interessa. Não é nada daquilo. São tijolos apenas. O triste, o insuportável, é a memoria dela naquele lugar. Seu sorriso, seu choro.

Foi muito choro, é verdade. Muito mais do que deveria ter sido. Mas os sorrisos… apenas um sorriso daqueles é o suficiente para encher o mundo de cor. O choro não é nada perto daquele sorriso.

Mas ela está no aeroporto. Está dentro do avião.

E ela vai seguir viagem. Provavelmente para nunca mais voltar.

São agora nove e meia. O avião partiu. Se perdeu entre o no azul escuro do céu noturno e os edifícios, onde há casais sorrindo, casais chorando, casais novos, casais velhos. Casais se separando.

O avião onde ela está decolou em São Paulo para pousar no adeus, essa palavra insuportável que eu não disse a ela.

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