Onde está o extremismo da esquerda? Por Isabel do Carmo

Karl Marx. Foto: Wikimedia Commons

Em artigo no Público, um dos maiores jornais de Portugal, a médica Isabel do Carmo, professora da Faculdade de Medicina de Lisboa e membro do grupo Estamos do Lado da Solução, faz uma reflexão sobre o termo “extrema-esquerda”.

O texto foi publicado em dezembro de 2020, mas trata de um assunto que está na ordem do dia: o preconceito em relação às políticas de esquerda ao redor do mundo.

Para a autora, muitos pensamentos chamados de “extremistas” pela direita não passam, na verdade, de “estimáveis propostas social-democratas”, entre elas o combate à desigualdade, o aumento dos salários, o respeito pelos direitos dos trabalhadores e a moradia digna para todos.

Leia abaixo:

Só a rodagem à direita que tem havido no mundo político e social, a nível não só europeu como mundial, é que pode dar azo a que se fale de extremismos de esquerda. As antigas nomenclaturas estão desajustadas às práticas políticas actuais. Só um mundo de superficialidade intelectual e dominado pelo pensamento e prática capitalistas pode chamar de extrema-esquerda partidos com assento parlamentar cujas práticas e objectivos não vão além de uma social-democracia moderada.

É corrente, diríamos que quase diário, o discurso político, em que para se falar da presença real e afirmativa da extrema-direita, no palco da cena, da representação e do poder político, se mete na narrativa “a extrema-esquerda”. Uma análise desta linguagem levar-nos-ia a encontrar com frequência a expressão “os dois extremos”, “os extremismos de esquerda e de direita”, “os acordos do Governo e do PS com a extrema-esquerda”.

Esta narrativa aparece, ou simplesmente para defender posicionamentos assumidos de direita, ou para falar em nome da “moderação”, do “centro”, do “equilíbrio”. Curiosamente este “centro” aparece sempre a defender um dos lados: o das grandes empresas contra os trabalhadores, o dos serviços privados contra os públicos, o do corte nas pensões e nos salários, o das privatizações. A moderação e o equilíbrio residem apenas numa espécie de cortesia política, na linguagem. (…)

A “extrema-esquerda” parlamentar, que nunca esteve no poder, mas apenas em acordo, não consegue arrancar mais do que tímidas reivindicações social-democratas, muito aquém das posições dos partidos escandinavos como tal designados e que subsistem na linhagem dos primeiros partidos formados na Europa com o programa “de cada um conforme as suas possibilidades, a cada um conforme as suas necessidades” (Programa de Gotha, social-democracia alemã).

Pouco a pouco fomo-nos afastando desse ideal humanista. Extremista e com voz pública poderosa só nos resta o Papa. Os partidos socialistas e trabalhistas foram-se deslocando para a direita, pela mão de personalidades como Blair, e tentam apenas ganhar espaço na arena do pensamento capitalista dominante.

Quanto ao Partido Social-Democrata português, tem, como se sabe, um nome equivocado, explicado por razões históricas oriundas do processo revolucionário. Só mesmo para o seu antigo chefe ele pode ser social-democrata, quando sempre seguiu o pensamento de Reagan e Thatcher, a instalação do chamado neoliberalismo e do domínio da finança e do individualismo. Esse partido e uma chuva de comentadores reclamam-se da “democracia liberal”. Mas também aqui a palavra “liberal” é um equívoco, para mascarar de democracia o liberalismo económico e herdar o bom nome das lutas liberais históricas. Liberais também são os regimes liberticidas da Polónia e da Hungria, em que nem sequer há separação de poderes, quanto mais democracia.

“Extrema-esquerda” na Europa em geral, em Espanha, em Portugal? Cultura marxista? As propostas, mesmo dos grupos de reflexão mais à esquerda, não passam de estimáveis propostas social-democratas: combate às desigualdades e à pobreza, melhores salários, respeito pelos direitos dos trabalhadores, casa para toda a gente, mais Estado nos serviços públicos. E entre os comentadores só vejo um que assume, não o dizendo, uma análise marxista – Pacheco Pereira. Perante a situação política faz a análise das classes em jogo, chama-as pelo nome e assume a defesa dos que estão em baixo.

Esta Esquerda que não é extremista pode no entanto ter esperança. Apesar de tantas derrotas, se olhar para trás, as grandes conquistas para a humanidade, que hoje são assumidas pela maioria, como suas, fazem parte dos movimentos e partidos que lhe pertenceram historicamente.

Desde que a Esquerda se chama esquerda (deixamos para trás, sem nome, todas as lutas dos oprimidos contra os opressores), portanto, desde a Revolução Francesa, que foi ela que as obteve: que cada pessoa seja um cidadão e não um súbdito, com direitos iguais para todos; que se tenha obtido o fim da escravatura; que tenha saído vitoriosa a luta pelo sufrágio das mulheres; que se chegasse à jornada de oito horas, aos weekends, às férias pagas, às caixas de reforma, ao fim do trabalho infantil; aos serviços estatais de saúde e educação. Que haja igualdade de género e origem geográfica, pelo menos na lei; que haja liberdade de escolha sexual.

Estas são as vitórias que caracterizam a Esquerda, são o seu currículo, e não os slogans, as frases feitas e as liturgias. Muita direita dirá que também está de acordo e que isto é adquirido. Pois… Agora. Todavia, são fruto de muitas batalhas. Donde se deduz que a Esquerda, com mais ou menos derrota, tem que ir prosseguindo a sua luta, por vezes passo a passo.