Onde o PT acertou e onde falhou nestes dez anos

A maior virtude foi dar prioridade à redução da iniquidade; mas a gestão prática disso deixou muito a desejar.

Festa do PT pelos dez anos ontem em São Paulo
Festa do PT pelos dez anos ontem em São Paulo

Gosto de acompanhar as enquetes do Diário.

Ajudam a ver o que se passa na cabeça dos brasileiros, de um modo geral.

Há poucos dias, o tema era os dez anos de PT no poder. (Aqui, você pode ver uma galeria de fotos da festa de ontem do PT em São Paulo.) A maior parte das pessoas avaliou como “bom” o trabalho do PT. Um contingente expressivo, e claramente apaixonado e engajado, foi além e optou pela alternativa “excelente”. Uma minoria reprovou cabalmente a gestão petista.

Eu, pessoalmente, optei por bom. Se houvesse uma resposta entre regular e bom, seria minha escolha. Meu absoluto apartidarismo me dá a frieza necessária para um julgamento técnico, por assim dizer.

O maior acerto do PT foi no rumo e na visão de futuro. Ter como meta a redução da abjeta iniquidade social brasileira é um objetivo irrepreensível.

No meio século entre o golpe militar e a chegada de Lula ao poder, o que se viu no Brasil foi um governo de ricos, por ricos e para ricos. O Estado serviu de babá aos poderosos em detrimento dos demais.

Logo depois do golpe, a estabilidade no emprego – um direito trabalhista da era Vargas – foi ceifada. Os sindicalistas foram perseguidos e as greves proibidas.

Que poderia acontecer senão uma concentração vergonhosa de riqueza?

Foi nesse cenário que o PT surgiu, cresceu e enfim chegou ao poder.

Vistas as coisas em retrospecto, pode-se dizer que a sociedade elegeu o PT, em 2002, para reduzir a desigualdade.

Passada uma década, fica claro que o objetivo foi apenas parcialmente atingido. O Brasil avançou socialmente, mas bem menos do que deveria. Uma hipótese para isso é que a execução do PT – a capacidade de colocar em prática projetos e ideias — tenha sido apenas medíocre, muito aquém da missão igualitária do partido.

Imagine uma empresa. Você estabelece os objetivos certos. Sabe para onde deve ir. Mas, se falha na execução, ficará abaixo do esperado.

Foi esse o caso do PT em seus dez anos de poder.

Que fique claro que muito pior seria dar seguimento às políticas anteriores ao PT, fundamentadas na ditadura militar. Não há execução que salve um objetivo errado. Viveríamos hoje um caos social de proporções tenebrosas se uma mudança não ocorresse em 2002.

A hipótese da execução medíocre ganha força quando você vê os balanços que Zé Dirceu faz destes dez anos.

Num deles, ele admitiu que o PT nada fizera para melhorar o sistema penitenciário brasileiro. É um assunto que, naturalmente, se tornou importante para ele, dada a pena que recebeu.`

Em outro balanço, dias atrás, diante de militantes petistas, Dirceu foi muito além das grades porque recebeu perguntas extremamente pertinentes.

Perguntaram a ele por que o PT não buscara nestes anos todos aprovar uma legislação de imprensa que impeça abusos das empresas jornalísticas e, consequentemente, proteja a sociedade. É o que a Inglaterra e a Argentina estão fazendo.

Dirceu atribuiu essa falha à falta de maioria do poder no Congresso, mas é evidente que houve mais que isso. Faltou, mais que maioria parlamentar, a firmeza convicta que se observa, por exemplo, em Cristina Kirchner.

Como Lula poderia levar adiante um projeto de tal envergadura enquanto mostrasse pelos barões da mídia uma reverência tão grande a ponto de comparecer ao funeral de dois deles, Frias e Roberto Marinho?

Mais uma boa pergunta foi feita a Dirceu pelos militantes petistas. Por que o governo não estimulou o surgimento de vozes alternativas ao conservadorismo das grandes corporações?

Especificamente: por que foi mantida a mesma lógica de destino de verbas publicitárias de sempre? Foi preciso que um levantamento viesse à luz para que soubéssemos que a Carta Capital, tão acusada pela direita de ser chapa branca, recebe na verdade migalhas da publicidade estatal.

As Organizações Globo – de Jabor, Merval, Noblat, Míriam Leitão, Sardenberg, Magnolli, Kamel etc etc – estão no extremo oposto da Carta Capital mesmo quando a audiência da tevê desaba a níveis inéditos e a circulação do jornal vai na mesma direção.

Alguém consegue explicar esse disparate?

Dirceu também não. Ele admitiu que alguma coisa poderia ter sido feita aí.

Deveria. Até porque o Brasil tem experiência sobre o que a mídia pode fazer quando faltam freios. É de domínio público o papel das grandes empresas de jornalismo no golpe de 1964, e na desestabilização, antes, de Getúlio Vargas.

Existe jurisprudência, portanto.

O PT fez pouco aí. Ou nada. Com isso, ganhou corpo a tese esdrúxula e cínica de que regulamentar a mídia é “censurar”.

Faltou aí, mais uma vez, competência na execução. Dados os absurdos cometidos pela mídia – a Veja chegou a publicar um dossiê que afirmava que Lula tinha conta no exterior, depois de admitir não ter tido capacidade de provar nem de desmentir as acusações – não seria tão difícil assim convencer a sociedade da necessidade de estabelecer novos parâmetros para o jornalismo.

O ensino público, a saúde pública — o progresso em pontos tão vitais foi também frustrante nestes dez anos. Parece faltar talento gerencial ao PT, e isso limita o alcance de seus projetos.

Não basta ter boas ideias: é preciso materializá-las. E isso advém de pessoas não apenas bem intencionadas, mas competentes administrativamente. Talvez a cultura do compadrio para preencher cargos executivos tenha cobrado um preço aí.

Com tudo isso, fica teoricamente aberta no Brasil a porta para um projeto que alie a visão acertada de reduzir a desigualdade com uma execução mais fina e mais competente.

Mas não se vê nada disso na cena política nacional. O que se observa, na oposição, é o velho nhenhenhém reacionário — e deslocado no tempo e no espaço – do PSDB.

Isso pode dar um tempo extra ao PT para que se aprimore na execução – desde que reconheça o quanto tem que progredir aí.

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