
O deputado federal Mário Frias (PL-SP) destinou uma emenda de R$ 1 milhão para a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB), comandada por Karina Ferreira da Gama, aliada do parlamentar e responsável pela Go Up Entertainment, produtora do filme “Dark Horse”, inspirado na vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Parte da verba foi usada para pagar um advogado do próprio Frias e comprar livros didáticos que, segundo responsáveis pelo projeto, nunca foram entregues.
A emenda foi apresentada no orçamento de 2024, ano em que cada deputado teve direito a indicar R$ 37 milhões em emendas individuais. Frias justificou que os recursos seriam destinados a um projeto de fomento ao empreendedorismo para jovens e adolescentes em Pirassununga, no interior de São Paulo.
Ao Estadão, Kayo Azevedo, responsável técnico do projeto Jovem Empreendedor, afirmou que a iniciativa não foi executada na cidade. “Não foi executado em Pirassununga. Não foi executado por mim. Fiquei sabendo que não iria mais rolar aqui, não seria eu que executaria. Ninguém deu satisfação ou falou nada”, disse.
Segundo documentos de prestação de contas analisados pela reportagem, o maior beneficiário da verba foi a Editora Dinâmica, contratada por R$ 400 mil para fornecer 2.750 kits de livros pedagógicos ao projeto. O material deveria atender alunos do 4º e 5º anos do Ensino Fundamental de escolas públicas municipais, mas não chegou a Pirassununga, segundo os responsáveis pela iniciativa.

A editora pertence a Dayvid Medeiros, sócio em outra empresa de Heric Fabiano Dias. A esposa de Heric, Luiza Tessari Rocha Dias, doou R$ 70 mil à campanha de Mário Frias a deputado federal em 2022. Dayvid foi procurado por ligação, mensagens e e-mail, mas não respondeu. Heric e a mulher não foram localizados.
O segundo maior subcontrato do ICB foi com o Instituto Super Poder Educacional, de Pamella Cristiane Dias, no valor de R$ 300 mil. O serviço previa a entrega de “24 kits pedagógicos”, com “roteirização, produção e gravação das aulas”, “trilhas de conteúdo complementares” e licença de 12 meses para 2,5 mil acessos em uma “plataforma”.
Outros R$ 80 mil da emenda foram pagos a uma empresa que tem como sócio o advogado Fabio Lago Meirelles. Houve um repasse de R$ 30 mil para serviços de contabilidade e outro de R$ 50 mil para serviços jurídicos. Entre 2022 e 2026, Meirelles representou Frias em ao menos nove processos na Justiça, sendo oito na Justiça Eleitoral e um na Justiça Estadual de São Paulo.
A ONG de Karina também contratou uma empresa ligada a Marcelo Machado, dirigente de outra entidade presidida por ela, a Academia Nacional de Cultura. A MM7, empresa de Machado, recebeu R$ 50 mil para serviços de “divulgação” do projeto Jovem Empreendedor. A legislação proíbe ONGs de contratar empresas de seus próprios dirigentes, por conflito de interesses.
A emenda faz parte de um conjunto de R$ 2 milhões enviados por Mário Frias ao ICB que está sob investigação do Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Flávio Dino apura se os recursos foram usados para financiar o filme “Dark Horse”. A prestação de contas do convênio está atrasada.