Orelha: a covardia humana. Por Kakay

Atualizado em 30 de janeiro de 2026 às 8:19
cachorro Orelha com a língua para fora, perto de casinha de madeira
O cachorro Orelha – Reprodução

Muito significativo, preocupante e sintomático o fascínio da extrema direita pela violência. Cultores da morte apostaram suas fichas na liberação escandalosa das armas, incentivando o armamento com um discurso infantil e desprovido de realidade. Esta é uma característica dos fascistas: defendem posições políticas sem nenhum estudo e sem nada que possa sustentar a completa insanidade.

Não podemos nos esquecer de que parte da política machista, misógina e fascista de Bolsonaro se amparava nos mais diversos tipos de violência: contra a mulher, que certamente está na raiz do dilacerante aumento do feminicídio; contra os pobres; na completa insanidade contra os pretos e contra os que estão na invisibilidade social. Combater a humanização foi a base do fascismo, que mudou e marcou o Brasil.

O assassinato covarde do cão de praia Orelha nada mais é do que este pus que está cada vez mais vindo à tona. É o desprezo pelos pobres, pelos sem visibilidade social, pelos pretos, pelas mulheres e pelos animais.

Agora, estamos diante de uma violência que chocou o país. A crueldade cometida contra um cachorro querido e que encantava, pelo que dizem as notícias, a todos na Praia Brava, em Santa Catarina. Ele era acolhido e cuidado. A praia tem 3 casinhas para acolher os cachorros que vivem nas ruas. No caso do Orelha, consta que um aposentado o alimentava todos os dias. O que demonstra um lado gentil da solidariedade.

Ele, evidentemente, não oferecia nenhum risco. Não era nada na visão dos ricos que desdenham exatamente o “não ser nada”.  Ao que tudo indica, o Orelha, nome carinhoso de um cão de praia, foi morto por isso. Por não ser nada, na visão podre de um grupo fascista. É uma morte violenta, covarde e cruel. Morto com requintes de crueldade, a pauladas. Consta que o mesmo bando que o vitimou teria tentado matar afogado um outro cachorrinho, o Caramelo, que teve mais sorte e foi adotado pelo delegado de polícia da região. A repercussão leva à necessidade de uma reflexão sobre estes tempos.

É preciso enfrentar o fenômeno da brutalidade que contaminou a sociedade. A prepotência da violência é um atributo dos que não têm argumento. Dos que abdicaram da política pelo fanatismo, dos que se amparam em fake news e em discursos extremos, inclusive religiosos, que pelo dinheiro e pelo poder prostituíram o nome de Deus.

A violência está presente do ato covarde da morte violenta do Orelha até o uso criminoso das redes sociais para espalhar mentiras e ódio. É tudo fruto de uma estratégia de poder. Quando estão no dia a dia da disseminação racista e fascista, eles usam o anonimato das redes sociais. Vez ou outra, alguns, mais desavisados –no caso, adolescentes–, esquecem que o anonimato é a arma desse grupo e despem as máscaras. Que sirva para uma discussão mais ampla sobre nosso triste tempo.

Lembrando-nos do grande Olavo Bilac, no poema Plutão:

“Depois, seguiu o menino,

Seguiu-o calado e sério;

Quis ter o mesmo destino:

Não saiu do cemitério.

Foram um dia à procura

Dele. E, esticado no chão,

Junto a uma sepultura,

acharam morto o Plutão.”

Kakay
Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido pela alcunha de Kakay, é um dos maiores advogados criminalistas brasileiros. É também poeta e escritor