Os amantes da guerra e o Nobel da Paz: de Teddy Roosevelt a Barack Obama

ROOSEVENT, NOBEL DA PAZ E AMANTE DA GUERRA

UM LIVRO NOVO sobre guerra lançado nos Estados Unidos provoca debates e reflexões. O autor, Evan Thomas, é editor da revista Newsweek, e o livro se chama “The War Lovers”.  Os apaixonados pela guerra, é como eu traduziria.

Thomas se detém profundamente no presidente americano Teddy Roosevelt (1858-1919). Roosevelt  ocupou a  Casa Branca há pouco mais de cem anos e levou para ela uma carga notável de beligerância. Ele acreditava que um país que ficasse um longo tempo em paz perdia vitalidade, virilidade, e decaía.

Roosevelt se gabou, numa carta a um amigo, de ter matado um espanhol com as próprias mãos numa guerra em que os Estados Unidos anexaram um pedaço que pertencia à Espanha. Já velho, ele quis se alistar no exército americano na Primeira Guerra Mundial, mas acabou recusado pela idade. Aparentemente, Roosevelt buscou reparar a atitude do pai, que, como era permitido então, pagou para lutarem por ele na guerra civil americana. Dois homens o substituíram nos combates,  ao custo de 300 dólares cada. “Ele achava que tinha que explicar isso sempre”, relatou uma sobrinha de Roosevelt num trabalho de história oral.

ROOSEVELT, com essa biografia bombástica, recebeu o Prêmio Nobel da Paz, em 1905. Gandhi jamais recebeu, para ficar num caso ilustrativo.

Que o Nobel é controverso, até os ossos de seu criador sabem. Alfred Nobel inventou a dinamite. Por receio de que a posteridade o associasse a destruições apenas, em seu testamento ele concebeu o Prêmio Nobel.  Foi, parcialmente, bem sucedido no propósito de mitigar os efeitos da dinamite em sua memória.

O drama insolúvel do Nobel é que quem o concede são pessoas que têm todas as fraquezas e limitações dos seres humanos. O escritor Graham Greene, um dos maiores romancistas do século passado, jamais recebeu o Nobel de Literatura. A explicação mais convincente que apareceu para esse erro monstruoso foi que Greene teria sido amante da mulher de um dos chefes da Academia Sueca, que concede os prêmios. No obituário de Greene, o jornal The New York Times escreveu que o fato de ele não ter recebido o Nobel foi motivo de perplexidade e lamento para muitos leitores e profissionais do universo literário. Como leitor, estou incluído aí.

Agora mesmo, outro absurdo foi cometido com a entrega do Nobel da Paz para Barack Obama. Obama merece tanto, pelo menos até aqui, quanto Roosevelt. Que paz efetivamente ele promoveu? O número de mísseis despejados no Oriente Médio por aviões que voam por controle remoto aumentou sob Obama em relação a George Bush.

Poucas semanas atrás, Obama vibrou com a morte de um importante terrorista islâmico, apanhado no  Paquistão por um desses mísseis. Mas junto com ele morreram a mulher, as três filhas e uma netinha. Tudo bem? Para cada terrorista morto no Oriente Médio, 50 civis são também apanhados.

A DANÇA DO CASAL NO BANQUETE DO NOBEL

Que paz é esta? Como genuinamente se espantar com o número de jovens americanos de origem muçulmana que vão para países como o Paquistão lutar contra os próprios Estados Unidos?

Não acredito que Obama, como Roosevelt, acredite nas virtudes da guerra para conservação do estado másculo de um país. Mas, até aqui, sua contribuição para a paz equivale à do antecessor que matou um espanhol com as próprias mãos e se gabou, como mostra Os Apaixonados pela Guerra:  zero.

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