Os bastidores da entrevista em que Olavo de Carvalho me chamou de vagabunda e puta. Por Letícia Duarte

Letícia Duarte. Foto: Reprodução

No sábado (28), a jornalista Letícia Duarte publicou uma reportagem com base na entrevista feita com “O fundador intelectual da extrema-direita”, como chama Olavo de Carvalho.

Nela, a jornalista conta a influência e a relação de Olavo de Carvalho com o governo Bolsonaro, além de narrar os ataques que sofreu do autointitulado filósofo.

Pelo Twitter, ela contou alguns bastidores das entrevistas:

Ainda pretendo escrever uma versão completa em português da minha experiência com Olavo de Carvalho, mas atendendo a pedidos vou contextualizar aqui um pouco dos bastidores da reportagem que publiquei na TheAtlantic, baseada em duas entrevistas que fiz na casa dele:

Estive na casa de Olavo pela primeira vez em dezembro de 2018. Na ocasião, passei seis horas na companhia dele e de sua família. Fiz uma entrevista longa sobre seu papel como ideólogo da nova direita e assisti a uma das aulas de seu “curso online de filosofia.” 

Nesse primeiro encontro, Olavo falou mal de jornalistas como de costume, mas foi educado. Me mostrou sua coleção de armas, contou histórias e definiu o governo Bolsonaro como uma “ejaculação precoce”, por ter sido eleito antes de vencer a “guerra cultural contra a esquerda”

Minha entrevista inicial com Olavo virou um capítulo da minha thesis do mestrado em Política e Global Affairs pela Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, escrita como uma longa reportagem que analisou como a extrema-direita está reescrevendo a história do Brasil

Ao concluir meu mestrado em Columbia, fui selecionada como uma das repórteres do projeto global Democracy Undone, do GroundTruth, que analisa como líderes autoritários estão ameaçando a democracia pelo mundo. Fui encarregada do capítulo brasileiro.

Enquanto produzia um podcast sobre o Brasil na era Bolsonaro para a série Democracy Undone, solicitei uma nova entrevista com Olavo, para atualizar questões da primeira, que havia sido feita antes da posse de Bolsonaro, e perguntar se ele estaria disposto a gravar em inglês

Por quatro meses, tentei agendar uma segunda entrevista. Primeiro, me disseram que as entrevistas com Olavo estavam “temporariamente suspensas”, depois que ele só daria entrevistas se eu tivesse lido pelo menos “10 livros dele.” Segui com as leituras (sim, li vários livros).

Como última tentativa de entrevistá-lo, decidi ir até a casa de Olavo pessoalmente.Quando bati na porta, sua esposa disse que ele não poderia me receber porque estava “de cama.” Então deixei com ela uma cópia da minha thesis de Columbia. Ela sugeriu que eu ligasse mais tarde

Duas horas depois, quando liguei novamente para saber se ele gostaria de me conceder uma entrevista, Olavo atendeu. Ele disse que poderia me receber, mas que eu teria que ouvir “coisas que não iria gostar”. Ele avisou que gravaria nossa conversa e me exporia na internet.

Voltei à casa de Olavo porque acredito que história precisava ser contada. Porque Olavo é um personagem importante para entender o momento que o Brasil está vivendo, goste-se ou não dele. Estava ciente de que Olavo costuma atacar jornalistas, mas foi pior do que eu pensava.

Ao longo de 90 minutos de conversa, Olavo de chamou de vagabunda. Idiota. Maliciosa. Filha da puta… puta. Nós dois estávamos gravando a entrevista. Ao final, ele disse que não me autorizava a publicar nada do que ele falou. “Eu é que vou publicar”, ele disse.

Horas depois, Olavo postou outra versão no Facebook, ameaçando divulgar o vídeo se eu publicasse a entrevista. Como disse para ele (espero que ele divulgue essa parte), acredito que nossa conversa é uma boa oportunidade para o público aprender mais sobre seus métodos.

Mais do que ataques pessoais, esse é um ataque ao jornalismo, que é parte de uma estratégia mais ampla nessa “guerra cultural” na qual Olavo acredita. O objetivo, como ele me disse, é deslegitimar a mídia e as universidades, que na visão dele seriam dominadas pela esquerda

Para quem quiser saber mais, recomendo ouvir minha conversa com Olavo no meu podcast Weaponize Fear (a parte sobre Olavo começa depois de uns 15 minutos), e a entrevista que dei para o HowSoundTweets.

Como jornalista, quero entender como essa lógica autoritária opera, porque ela é perigosa para a democracia.A propósito, Olavo começou a me atacar porque eu escrevi que ele era de “extrema-direita”, quando ele mesmo assume isso em outros escritos. 

Pra finalizar, estou convencida de que esta cartilha de ataques é muito danosa à democracia. Tenho pensado muito em como ultrapassar essa polarização cega para retomar o diálogo social. O que pode ser maior do que o ódio? Quais são nossos valores comuns? Precisamos refletir

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