Os conselhos de um desembargador ao tenente-coronel acusado de matar a esposa PM

Atualizado em 23 de março de 2026 às 9:13
O desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan e o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto. Foto: reprodução

Imagens de câmeras corporais da Polícia Militar revelaram os momentos que antecederam a entrada do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto no apartamento onde a soldado Gisele Alves Santana foi encontrada baleada, em 18 de fevereiro. O registro mostra o encontro do oficial com o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, chamado ao local, segundo o próprio magistrado, na condição de amigo.

Às 9h07, o desembargador saiu de um elevador, atravessou uma área já isolada e foi direto ao encontro do oficial. Poucos segundos depois, ambos seguiram juntos até o apartamento onde a vítima havia sido encontrada.

Gisele morreu no mesmo dia, às 12h04, no Hospital das Clínicas. Na ocasião, o tenente-coronel sustentou que a esposa teria tirado a própria vida, versão que foi repetida ao magistrado e posteriormente a outros policiais.

Um mês depois, no entanto, Geraldo Neto foi preso preventivamente sob acusação de feminicídio e fraude processual. Ele passou a responder a processos no Tribunal de Justiça de São Paulo e na Justiça Militar, após investigações apontarem inconsistências na narrativa apresentada inicialmente.

Dados obtidos pela investigação mostram que, antes do encontro no prédio, o oficial tentou contato com o desembargador diversas vezes. Entre 8h02 e 8h03, fez ao menos três ligações sem sucesso.

O desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan na cena do crime. Foto: reprodução

O primeiro contato efetivo ocorreu às 8h04, seguido por novas tentativas até cerca de 8h41, quando conseguiu falar novamente com o magistrado. No mesmo intervalo, também tentou acionar o 190 e entrou em contato com um superior, indicando uma sequência intensa de chamadas em poucos minutos.

Ao chegar ao local, o desembargador tentou impedir a entrada no apartamento. As imagens registraram que ele afirmou que o ideal seria não acessar o imóvel, que já estava sob preservação policial. Ainda assim, o tenente-coronel insistiu e avançou, sendo acompanhado pelo magistrado. Menos de 30 segundos após o encontro, os dois cruzaram a porta.

Dentro do apartamento, o desembargador permaneceu por cerca de 12 minutos. Durante esse período, demonstrou incômodo e voltou a tentar convencer o oficial a deixar o local. Em determinado momento, orientou que ambos “saírem dali”, mas não foi atendido. O tenente-coronel afirmou que precisava tomar banho e pediu que o magistrado aguardasse, o que não ocorreu. Antes de sair, o desembargador reiterou a necessidade de deixar o ambiente isolado.

Durante a permanência no imóvel, o oficial repetiu a versão de que a esposa teria se suicidado. O relato incluía uma discussão no quarto, seguida por um período no banheiro e a posterior descoberta da vítima na sala, baleada na cabeça, com a arma na mão. A mesma narrativa foi apresentada posteriormente à Polícia Civil.

As investigações, conduzidas ao longo de um mês, reuniram provas técnicas que contradizem essa versão, conclusão que também foi referendada pela Corregedoria da Polícia Militar. O desembargador, que mantinha contato frequente com o oficial por mensagens e ligações, foi ouvido como testemunha no caso.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.