Os cúmplices do esquema que sonega a segunda dose. Por Moisés Mendes

O ministro Eduardo Pazuello e o presidente Jair Bolsonaro Foto: Divulgação

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Por Moisés Mendes

O Rio Grande do Sul viveu ontem o terror que outros lugares já vivenciaram e que o Brasil todo irá enfrentar. Não há vacina CoronaVac para a segunda dose de todos os que já foram imunizados até aqui.

A falta da vacina para a primeira dose já era e continua sendo preocupante, com um calendário errático, lento e imprevisível.

Mas é a segunda dose, a dose do reforço, a que vai nos assegurar que estamos mesmo imunizados. Chegamos à etapa das dúvidas aterrorizantes.

A primeira dose é sempre, desde o começo, a espera normalizada pelas expectativas de uma grande maioria abaixo dos 60 anos e que não sabe nunca quando será vacinada.

O drama agora é com a segunda dose, a que não poderia nunca ser uma miragem. Porque sem essa segunda dose a eficácia da primeira passa a ser uma incógnita.

Ninguém sabe o que acontece se a segunda dose for aplicada muito fora do prazo. O que os especialistas dizem é um consolo. Mesmo que não se saiba o que de fato ocorre, o que se espera é que o alongamento do tempo para além de 28 dias não torne a primeira dose inútil. É o que se espera.

O brasileiro passou a depender das suposições. Porque a ciência é manejada criminosamente pelo governo. É mais do que imprecisão, imprevisibilidade, falha, erro. É ação deliberada para que nada dê certo.

A falta da segunda dose da vacina é a confirmação de que há um plano, que Eduardo Pazuello explicitou antes de ir embora. O plano era induzir ao consumo imediato tudo o que existia de vacina agora, aplicando a maior parte como primeira dose, mesmo que a produção para a segunda fosse uma interrogação.

Os Estados seguiram à risca a recomendação de Pazuello, com exceção, ao que parece, de Bahia, Maranhão e Minas.

Pazuello induziu os governantes ao erro de não guardarem a segunda dose. Governadores e prefeitos queriam participar de uma gincana. Estados como o Rio Grande do Sul venderam o marketing da vacinação acelerada, para aparecer no Jornal Nacional como os que mais vacinavam no país.

O que o governo gaúcho fez foi torrar a vacina, sabendo que corria o risco de não ter reservas para uma segunda dose para milhares de pessoas. Pazuello e Bolsonaro tiveram cúmplices na trama de terror que se explicitou nessa terça-feira.

Pela primeira vez, desde o início da vacinação, milhares de pessoas retornaram para casa frustradas em um Estado inteiro.

Repetiram-se no Rio Grande do Sul as cenas que o Brasil assiste há dias em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Um Estado virou uma imensa Duque de Caxias.

O colapso do esquema da segunda dose não pode ser atribuído só aos chineses, que não enviaram insumos a tempo, e ao Butantan, que não produziu vacinas porque não tinha insumos.

O terror que passa a ser enfrentado pelos idosos, em dúvida sobre uma imunização incompleta, foi provocado também pela incúria de quem não soube gerir a escassez.

Voltem para casa porque não há vacina, diziam os servidores. Não há e não se sabe quando haverá.

Já são muitos os estudos sobre as ações deliberadas do governo como aliado da pandemia. Decisões oficiais formam um conjunto coerente, sempre na construção do projeto de sabotagem da informação, do isolamento solidário, da ciência, da vacina.

Ontem, Bolsonaro disse: “Eu não errei em nada”.

Ele está certo. Erram todos os que, para tentar ofendê-lo, dizem que ele errou. Bolsonaro não erra, ele acerta sempre, porque o plano sempre foi esse. Negação, fake news, cloroquina e sabotagem da vacina.

A segunda dose que não existe para todos é o grande momento do plano de Bolsonaro de aterrorizar os que sobrevivem. O genocida criou uma nova divisão entre os imunizados e os meio imunizados.