Os imensos buracos na narrativa de Trump sobre o resgate dos pilotos dos EUA no Irã

Atualizado em 6 de abril de 2026 às 22:18
Trump e os caças F15E dos EUA abatidos no Irã

Da conta no X do francês Arnaud Bertrand, empreendedor e comentarista de economia e geopolítica. Brilhante, ele é fundador da HouseTrip (vendida para a TripAdvisor) e da Me & Qi:

Então, se entendi direito, a narrativa é a seguinte:

– Um caça F-15E americano foi abatido sobre o Irã, apesar de Trump ter dito dois dias antes, em seu pronunciamento à nação, que o Irã “não possui equipamentos antiaéreos. Seus radares foram 100% destruídos.” 

– O oficial de sistemas de armas do avião – um “coronel altamente respeitado”, segundo Trump – ejetou-se da aeronave e ficou “gravemente ferido” (ainda segundo Trump).

– Mesmo assim, ele conseguiu “escalar uma crista de montanha de 2,1 km e se esconder em uma fenda” nas montanhas Zagros, apesar dos ferimentos.

– Drones MQ-9 Reaper dos EUA começaram a abater todos os “homens iranianos em idade militar considerados uma ameaça que se aproximassem a menos de três quilômetros [da localização do americano]”.

– Para resgatá-lo, os EUA conseguiram tomar um “aeroporto abandonado”, a 320 quilômetros de distância, no interior do Irã, perto de Isfahan, que por acaso é onde se localiza o maior centro científico atômico do Irã. 

– Eles pousaram dois aviões de transporte militar MC-130 naquele aeroporto em uma operação que envolveu “centenas de soldados das forças especiais e militares”.

– Ambos os aviões MC-130 ficaram “presos na areia” e os EUA os destruíram “para evitar que caíssem em mãos iranianas”. 

– Eles mobilizaram “três novas aeronaves para resgatar todo o pessoal americano” em terra.

– Circulam vídeos online de “intensos confrontos” com mísseis, presumivelmente iranianos, caindo no condado de Kohgiluyeh, nas montanhas Zagros, naquela noite.

– O Irã enviou fotos das consequências no “aeroporto abandonado”, e o local é de completa destruição. Partes de um avião americano e de um helicóptero MH-6 estão espalhadas pelo chão, ainda fumegantes. O Irã alega que foi ele quem destruiu todas as aeronaves.

– Enquanto isso, um segundo avião americano, um A-10 Warthog, também caiu na sexta-feira perto do Estreito de Ormuz, segundo dois oficiais americanos que falaram ao NYT. Nesse caso também, o único piloto foi aparentemente “resgatado em segurança”.

– Em meio a tudo isso, após os múltiplos aviões e helicópteros destruídos ou abatidos, os intensos confrontos documentados e as “centenas de soldados das forças especiais e militares” operando em território iraniano, nenhum soldado americano foi dado como morto “ou sequer ferido” (segundo Trump).

E o “coronel altamente respeitado” para quem tudo isso aconteceu? Sem nome. Sem foto. Sem entrevista. Ninguém falou com ele nem sabe quem ele é.

Resumindo: um equipamento antiaéreo que supostamente não existia abateu um F-15 (e, aparentemente, um A-10 Warthog no mesmo dia). Um homem gravemente ferido escalou uma montanha de 2,1 km. Os EUA tomaram um aeródromo a 320 km dentro de um país com o qual estão em guerra, ao lado de um de seus locais nucleares mais estratégicos, e mobilizaram centenas de soldados, aparentemente sem impedimentos.

Perderam dois aviões para a “areia” e destruíram seus próprios helicópteros. Vídeos mostram intensos confrontos, mísseis caindo do céu, mas ninguém ficou “sequer ferido”. E o homem no centro de tudo isso? Ninguém sabe quem ele é, completamente anônimo, sem nenhuma foto, mas Trump diz que ele está “são e salvo”. O mesmo vale para o piloto do A-10 Warthog resgatado, que também permanece anônimo.

Trump conclui que tudo isso prova que os EUA “alcançaram domínio e superioridade aérea esmagadores sobre os céus iranianos”, apesar de todo o episódio só ter acontecido porque o Irã abateu seus aviões.

Basicamente, a única coisa “esmagadora” aqui é a audácia da narrativa…

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.