Os melhores momentos da entrevista de Lula ao DCM, Fórum e Brasil 247

Atualizado em 14 de abril de 2026 às 22:32
Lula

O presidente Lula falou com exclusividade ao DCM, à Fórum e ao Brasil 247, nessa terça-feira (14), e a entrevista repercutiu em todo o Brasil. Entre os temas abordados, Lula se afirma como candidato à presidência para o quarto mandato, critica Trump e Netanyahu, se solidariza com o Papa Leão XIV, fala de Cuba e da Venezuela e de pontos importantes do seu governo, como a segurança pública e a necessidade de resolver o endividamento do povo brasileiro.

POR QUE UM QUARTO MANDATO?

Não se trata de eu querer um quarto mandato. As circunstâncias políticas e o momento conjuntural que você vive é que decidem se você vai ser ou não. Primeiro, porque nós temos um legado nesse país, e eu tenho orgulho das coisas que fizemos em todos os nossos mandatos. Segundo, por um compromisso moral, ético e até cristão: não permitir que um fascista volte a governar esse país. A democracia, para quem lutou para defender e derrubar o regime militar, custou muito caro a muita gente. A gente teve uma experiência muito bem-sucedida com a eleição do governo Tancredo Neves, a partir do colégio eleitoral, depois tivemos o desastre da eleição do Collor, mas sucesso na eleição do governo do Fernando Henrique, tivemos o Itamar Franco, depois a minha vitória, que foi uma passagem extraordinária, você passar de um cientista político considerado progressista para um metalúrgico de experiência sindical. Depois, ainda elegemos uma mulher como a Dilma, para termos um golpe de Estado e cairmos na mão de um fascista. Não temos o direito de permitir que isso aconteça no Brasil.

Eu me sinto fisicamente e politicamente muito bem. Saúde preparada e motivado. Então, a razão da minha candidatura é essa: eu tenho compromisso com esse país e com o povo brasileiro. Eu disse, desde minha primeira posse, que, se, ao terminar o meu mandato, o povo tiver almoçando, jantando e tomando café, eu realizei a grande obra da minha vida. Hoje, vivemos um bom momento: temos a menor inflação acumulada em quatro anos, maior massa salarial, maior aumento do salário mínimo, com aumento real de salário todos os anos seguidos, maior exportação da história do Brasil, estamos com capacidade produtiva na indústria, que voltou a exportar. O povo está vivendo um pouco melhor, mas aquém da expectativa do próprio povo.

Aprendi muito cedo uma frase: quem está contente com o que tem, não merece o que tem. É preciso sempre a gente querer um pouco mais para poder brigar. Eu sou candidato político porque tem muita coisa ainda para fazer nesse país. Foi mais difícil recuperar o desastre que foi o governo anterior do que em 2003, pois, no governo do FHC, tinha muita coisa para ser feita, mas aqui não. Aqui eles destruíram, e reconstruir é muito mais difícil. Obviamente, como sou democrata, preciso esperar a convenção do partido para decidir se o candidato será o Lula ou não, mas garanto que nunca estive com tanta energia para ser presidente da República como estou agora.

A FARIA LIMA SEMPRE VAI QUERER OUTRO CANDIDATO

O mercado e a Faria Lima sempre vão querer um outro candidato. Eles não querem política de inclusão social, que é o que eu quero fazer. Eles só querem política para pagar a taxa de juros deles. Então, sempre teremos divergência, e eles não sabem que nós vamos fazer muito mais investimento em política de inclusão social, porque o povo brasileiro merece um pouco mais do que tem.

COMO DIALOGAR COM O ELEITOR QUE PENSA QUE AS COISAS NÃO VÃO BEM?

Aprendi muito cedo, na vida, a entender o sentimento do povo brasileiro. Acordo de manhã e vou pra academia, vou caminhar e pergunto para as pessoas: como está tua vida? O salário? E as dívidas? No que você gasta teu dinheiro? Assim, fico de acordo com o que é a vida real das pessoas.

Acho, sim, que a massa salarial cresceu, mas também a necessidade de consumo cresceu. Tem coisas em que precisamos investir hoje que antes não se fazia: as pessoas gastam dinheiro com internet, com Mercado Livre e agora até as bets, para assaltar o povo.

COMO RESOLVER O ENDIVIDAMENTO DOS BRASILEIROS?

Nós, que brigamos a vida inteira contra cassino, eu, pelo menos, como cristão, agora isso está na sala da tua casa, no celular do teu pai, avô ou avó. Nós sabemos dessa situação e, por isso, estamos preparando um programa para resolver parte da dívida das pessoas, assim como fizemos o Desenrola em 2024. O Desenrola não atendeu todas as necessidades, mas agora queremos aperfeiçoar com esse programa.

É importante que a gente consiga ganhar mais, mas também controle a capacidade de se endividar. Vamos tentar encontrar uma solução definitiva para amenizar o sofrimento das pessoas, enquanto tentamos controlar essa jogatina que tomou conta dos meios de comunicação do Brasil, seja do mundo digital ou real. Precisamos tentar terminar com essa guerra de jogatina, temos que brigar pra ontem. Sei que não é um tema fácil, mas tem muita lavagem de dinheiro nisso tudo, e, se queremos combater o crime organizado, temos que atacar todos os flancos, sem distinção. Tem muita gente que tá explorando demais o povo, e temos que agir. Estamos discutindo como fazer isso com a Justiça, com a Fazenda, com o Coaf, com o Banco Central. Queremos que seja um movimento de conjunto da sociedade brasileira para resolver, com uma grande proposta, o problema da dívida da sociedade brasileira, ao mesmo tempo em que a gente tenta amenizar o sofrimento do povo que gasta dinheiro induzido pela jogatina, que está sem nenhum controle nesse país.

QUEM MENTIU SERÁ PEGO DE CALÇAS CURTAS ESSE ANO

Tenho dito que esse ano será o ano da verdade contra a mentira. Os dois primeiros anos foram os anos da reconstrução, ano passado semeamos e esse ano será da colheita. Quem mentiu, mentiu e será pego de “calças curtas”, como o Flávio Bolsonaro foi com aquela fake do cara comendo no caminhão de lixo, que era no governo do pai dele. A mentira tem que ter vida curta e a verdade tem que durar. O momento eleitoral tem que ser discutido com a seriedade que tem para escolher um chefe de Estado. Se for na base da mentira, o resultado pode ser um desastre para a democracia e a sociedade brasileira.

Desde que cheguei na presidência, em 2003, os economistas de esquerda do meu partido, como a Maria da Conceição Tavares, que é um exemplo inatacável, e até os economistas de direita, todos diziam que o país estava quebrado e eu não conseguiria governar. O Brasil devia 30 bilhões de dólares ao FMI, não tinha dinheiro para pagar nossas importações, o Malan não era recebido pelo presidente do FMI, a inflação estava em quase 12%. O primeiro ano foi muito difícil, no segundo foi dando uma melhoradinha, no terceiro piorou de novo, e veio o tal mensalão para cima de nós.

Essas pessoas nunca pediram desculpa pra mim. A gente estava trabalhando para isso, e havia um fenômeno, que era: estávamos colocando concreto para subir a escala social das pessoas, muita política de crédito, as pessoas ganharam mais e o trabalhador de carteira assinada foi crescendo. Chegamos a uma situação de terminar o ano com 7,5% de crescimento, comércio crescendo quase 13% e a inflação dentro da meta. Aí vem a frase: “O Lula tem sorte”. No segundo mandato, foi a mesma coisa, e agora a mesma coisa. A gente não tem sorte, a gente tem compromisso. Só tem uma razão para eu ser candidato: é para o quarto ser melhor do que o terceiro.

Sobre esse Lula 3, quero contar uma coisa que a Faria Lima tem que saber: a economia brasileira não crescia acima de 3% desde que deixei a presidência da República, em 2010. Só voltou a crescer acima de 3% quando voltei, em 2023, quando eu voltei. O que posso dizer ao povo brasileiro é: se quiserem escolher um presidente, escolham alguém assim, de muita sorte. É importante escolher alguém que tenha compromisso de verdade.

E não é só a economia que cresceu, a Indústria Brasil: fazia quanto tempo que não tínhamos superávit comercial de coisas manufaturadas? Passamos a ter. Abrimos 518 novos mercados em 3 anos e meio para produtores brasileiros. Poucas vezes, na história, o Brasil é respeitado como é hoje, de Trump a Putin e Xi-Jiping, porque fazemos questão de respeitar e ser respeitados. Quantas vezes nesse país teve tanto crédito como tem hoje?

O meu quarto mandato é para fazer esse país dar um salto definitivo para se tornar um país desenvolvido.

DE MARECHAL DEODORO DA FONSECA AO INOMINÁVEL: TODOS SOMADOS SÃO METADE DE LULA

Quando você encontra uma economia destruída, você não pode administrar sem levar em conta que primeiro você precisa consertá-la. Em 2004, levei o superávit primário para 4,25%, pois estávamos em uma situação delicada e eu precisava passar seriedade para convencer as pessoas de que o Brasil era um bom receptor de recursos estrangeiros. Em 2005, paguei o FMI e, pela primeira vez, a coisa que mais custou nesse país, eu fiz: um colchão de segurança econômica, acumulando 270 bilhões de dólares em reservas internacionais. Essa foi a primeira vez que tivemos uma reserva dessa magnitude, e, até hoje, essa reserva está sustentando o Brasil e nos dando estabilidade.

Pode me comparar com qualquer presidente da história do Brasil, de Marechal Deodoro da Fonseca até o último cidadão que passou por aqui. Eu duvido que eles todos juntos fizeram 50% da política de inclusão social que nós fizemos nesse país. Fizemos sozinhos mais universidades e institutos federais do que todos eles juntos, colocamos mais alunos na universidade que eles tudo, fizemos mais escola de tempo integral que eles tudo junto. Isso é tudo? Não, ainda é pouco diante da necessidade e do atraso.

TRUMP NÃO TEM QUE AMEAÇAR O MUNDO

Acho que o presidente Trump faz um jogo eminentemente na tentativa de agradar o povo norte-americano para passar a ideia do país potente, preponderante e do povo superior. Obviamente, somos admiradores dos EUA em tudo que eles construíram, que cresceu e se desenvolveu na maior economia do mundo, a capacidade de trabalho do povo americano, mas isso não é pelo autoritarismo do presidente, é pela conjuntura econômica, importância do país, grau de universidade que eles têm. Ele não precisava ficar ameaçando o mundo, falei que ele tinha que escolher entre ser temido e ser amado. Quem tem medo não vê liderança, vê um algoz. Então, acho que Trump não precisava disso, e o povo americano não merecia isso. Eu acho essa guerra com o Irã inconsequente.

Quando conversei com o Trump, comentei: “Somos dois octogenários que não têm que falar sobre o que não é de interesse do seu povo. A razão pela qual nos taxou não é verdadeira, você não tem déficit com o Brasil, você tem um superávit em 15 anos de U$ 410 bilhões. Acho que ele compreendeu, e a coisa tá bem amenizada”. Falei que, se ele quisesse combater o crime organizado, fechávamos acordo na hora.

Na semana passada, a nossa Receita Federal fez uma troca de informações com a Receita dele para a gente prender contrabandista de armas, narcotraficante, gente do crime organizado.

O Ramagem acho que vai vir pra cá. A direita tá dizendo que ele foi preso por uma multazinha, nada disso. Ele foi preso, pois estava condenado a 16 anos aqui nesse país. Ele é um golpista condenado que tem que voltar ao Brasil para cumprir sua pena.

Aquela imagem de Jesus Cristo, sinceramente, não contribui com quem acredita num sistema multilateral e na democracia.

SOLIDARIEDADE AO PAPA LEÃO XIV

Estive com o Papa Leão XIV e saí muito bem impressionado. Sou solidário a ele, pois está correta a crítica que ele fez ao presidente Trump. Ninguém precisa ter medo de ninguém. Falei para o Trump que não precisa ele ficar me dizendo que tem o maior navio do mundo, pois não quero guerra com ele. Minha guerra é no argumento, quero o poder da palavra para mostrar que estamos certos e ele errado.

A DEFESA DA DEMOCRACIA

Tínhamos um fórum criado por nós, pelo Petro, pelo ex-presidente Bóric e o Pedro Sanchez, da Espanha. Agora terá uma reunião em Barcelona, e estarão eles, o México, a África do Sul e muitos outros países. Vamos lá para tentar mostrar a importância de fazer com que a democracia recupere o seu espaço no coletivo mundial, pois, fora da democracia, qualquer coisa é pior. A democracia é um regime difícil, pois você tem que conviver com o contraditório, mas isso é a riqueza da democracia. A sociedade em ebulição, se manifestando, e nosso exercício é esse, de lidar com essas coisas e construir sempre o caminho do bem. Sinceramente, acho que precisamos apenas dizer o seguinte: “É preciso definir na cabeça do povo o que é democracia, que é mais do que votar, é também ter direito de controlar o comportamento dos seus eleitos, ter o direito de trabalhar e comer decentemente, estudar, ter acesso à cultura e ao lazer, construir famílias dignamente, e as pessoas precisam ter esse direito de cidadania, senão, não tem explicação o exercício da democracia”. É com essa força de vontade que vou lá defender a democracia e as instituições que garantem a existência da democracia.

REESTATIZAR A BR DISTRIBUIDORA É POSSÍVEL?

No contrato de privatização da BR Distribuidora está escrito que, se quisermos readquiri-la, é só a partir de 2029. Até lá, ela pode ser vendida para qualquer um, menos para a própria Petrobras. Tentaram privatizar toda a Petrobras e não conseguiram, então foram vendendo partes. Eu acho essa guerra com o Irã inconsequente.

Agora, se a gente tivesse a BR na nossa mão, o não aumento de preço seria controlado por nós. Embora estejamos em uma briga muito grande, isentamos PIS e Cofins do óleo diesel, estamos dando uma subvenção de parte do ICMS dos governos de estado, estamos cobrando imposto dos importadores, para poder compensar e não permitir que o preço do combustível da guerra dos EUA x Irã chegue ao preço do feijão, da salada, do pão e ao tanque de um caminhoneiro autônomo que mal consegue viver com o preço do frete.

Essa é a nossa guerra. Obviamente que, da mesma forma que no meu primeiro mandato, compramos uma empresa para distribuir gás e eles venderam, eu ainda sonho que a gente vá ter uma empresa de energia, de gás, de combustível. A competência de governança da direita é dizer que o Estado é fraco e entra no governo para vender o Estado.

A TAXA DAS BLUSINHAS

O Congresso aprovou sob pressão. O comércio varejista do RJ e de SP, as lojas mais organizadas, fizeram uma pressão, o que eu achava um absurdo. Eu achava desnecessário o aumento da blusinha, pois são compras muito pequenas, que não têm nada muito significativo, e são as pessoas de mais baixa renda que compram. Se você entrar nas grandes lojas em São Paulo, verá muita loja vendendo roupas vindas da China, do Vietnã. A diferença é que um está vendendo na loja e os outros na calçada, pelo celular, no Mercado Livre.

Não posso anunciar ainda o que vamos fazer, pois temos um plano de trabalho e só vamos anunciar quando tiver tudo pronto, quero anunciar tudo de uma vez, pronto para funcionar. Mas estamos pensando em vários setores, um trabalho meticuloso, para que, quando a gente anunciar isso, se tenha um impacto no bolso das pessoas.

MINISTÉRIO DA SEGURANÇA PÚBLICA

Isso de “bandido bom é bandido morto” é uma coisa crônica no Brasil. Quem é de São Paulo sabe que, nos anos 1980, tinha que ouvir Gil Gomes e tal, com essa história. O que acontece é que, em 1988, houve uma Constituinte em que foi aprovada uma nova Constituição e, nesse momento, nós, os constituintes, atendendo ao apelo dos estados que estavam cansados do governo militar interferir nas políticas de segurança dos estados, nós então garantimos que a segurança pública era responsabilidade dos estados. O Governo Federal tem a Polícia Federal, que é quase uma polícia fazendária, que só pode entrar quando tem um pedido, e a Polícia Rodoviária Federal, que cuida das estradas federais.

Estou com uma PEC tramitando no Congresso Nacional. Ela já foi aprovada na Câmara, e, a hora que for aprovada pelo Senado, eu vou criar o Ministério da Segurança Pública. Ao criar esse ministério, teremos que ter um orçamento muito poderoso. Não dá para pensar em segurança pública sem orçamento.

Na hora que definirmos o papel da União na segurança pública, aí teremos segurança pública com Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal, com mais gente, mais inteligência, mais estrutura e com Guarda Nacional para se fazer as intervenções necessárias para ninguém nunca mais falar em GLO.

Outra coisa é o combate ao crime organizado. A Polícia Federal, nesses três anos e meio do nosso governo, já desbaratou mais de 10 milhões de bandidos nesse país. Qual o problema da violência? É que, quando você apura a corrupção e prende o bandido, aí então o crime aparece. Pois, no governo que não combate o crime, o crime não aparece. O que nós queremos é o jogo da verdade. Agora, eu disse para o Delegado-Geral da Polícia Federal: todo crime que a Polícia Federal desvendar tem que dizer quando a quadrilha começou a operar, quando o crime se deu, em que governo, pois aí a gente dará para a sociedade a dimensão da serpente que botou o ovo e germinou a semente da corrupção.

BANCO MASTER É BOLSOMASTER

Se você pegar a cronologia do banco Master, você perceberá que, em fevereiro de 2019, houve o primeiro pedido de legalização do banco Master, e o presidente era o Ilan, e ele negou. Em setembro do mesmo ano, já era o Roberto Campos Neto, e ele aprovou. Então, pegando a cronologia, se perceberá que, assim como o INSS, foi tudo no governo passado.

O que eu pedi ao companheiro Galípolo é que ele preste contas à sociedade de onde está a origem disso. “Não quero que você acuse o Campos Neto nem ninguém, você não é delegado de polícia, policial, procurador. Quero que você mostre para a sociedade quem é quem no filme, quem é o personagem principal, o coadjuvante etc., para que o povo saiba quem é quem”.

O deputado Paulo Pimenta foi muito bem na CPI quando fez a cronologia e chamou de BolsoMaster.

O POWERPOINT DA GLOBO

Eu tive uma conversa com um dirigente da Globo para mostrar a irresponsabilidade daquele PowerPoint, em tentar mostrar a conexão de um cara com o presidente da República, do presidente do Banco Central, e ainda colocaram uma bandeira do PT. Como já fui muito vítima muitas vezes, tive uma conversa muito séria, pois não dá para aceitar mais sacanagem, não dá.

Nada pode ser mais democrático que os meios de comunicação desse país, agora tem preferência política e ideológica. Eu fui vítima disso em 1989, em 1994, em 1998, em 2002, quando eu chamei a Globo para conversar porque o jornal O Globo dava mais destaque para a Heloísa Helena, que era a última colocada, do que ao presidente, que era o primeiro colocado. Depois veio 2006, fizemos campanha contra o Alckimin, 2010 e 2014, a canalhice que foi a Lava Jato. Mas eles criaram uns monstros, e eu sei o preço que eu paguei, e, para que eu pudesse aceitar concorrer a um terceiro mandato, eu precisava deixar o rancor de lado, pois ninguém consegue governar desse modo, mas eu não posso permitir que eles achem que eu esqueci o que eles fizeram.

Eu sei que minha família foi destruída. O diretor da Globo me disse que a pessoa responsável pelo PowerPoint foi mandada embora, ou seja, a corda arrebentou do lado do mais fraco, de um bagrinho. Mas eu sei qual era a intenção, assim como eu sei qual foi a intenção daquela montagem no debate com o Collor, em 1989. Não quero ficar em guerra a vida toda com a Globo como o Brizola fez, eu fui eleito para governar e quero governar, por isso acabo relativizando muita coisa, mas é importante a gente lembrar.

Jamais vou pedir a um jornalista para que ele fale bem de mim. Fale mal, mas fale a verdade. Não invente história. Até hoje estou esperando que algum sacana prove as coisas que me acusaram.

Todo ano começa o ano com o mercado fazendo uma previsão catastrófica do ano fiscal. Todo ano, no mesmo jornal, um Zezinho de Piracicaba, que ninguém sabe quem é, faz uma catástrofe “de que o governo está gastando demais”. Sabe qual a maior desgraça desse país? É que as pessoas ficam dizendo que a gente gasta com educação, com isso e aquilo, e nunca se perguntam quanto custou ao país não termos feito a coisa certa. Quanto custou fazermos tudo atrasado? A única coisa que somos obrigados a pagar é o juro da dívida. Sabemos que temos que pagar e temos responsabilidade, mas é preciso que essa gente seja mais honesta com a opinião pública. Esse país nunca esteve tão controlado como está agora. Pega o que era o déficit fiscal e a loucura dos precatórios do governo passado.

Não apenas eu, mas o pessoal que trabalha comigo, como o Haddad, esse pessoal tem biografia e não quer destruir sua biografia inventando história. O arcabouço fiscal foi uma necessidade de mostrar seriedade num momento difícil da economia brasileira. Eu cheguei na presidência e o Brasil não era lembrado para mais nada, o presidente era um eremita que ficava sozinho no mundo, hoje o Brasil é respeitado em todo o mundo. Acabamos de fazer um acordo que estava rolando há 25 anos, o acordo UE-Mercosul.

BENJAMIN NETANYAHU FAZ MAL À HUMANIDADE

O tipo de político que faz mal à humanidade é o tipo de político que, para ficar no poder, exige que ele faça o que ele está fazendo. Isso não cabe na minha cabeça. Tomo cuidado para não confundir o povo de Israel com Netanyahu, tem muita gente que não concorda com Netanyahu, que quer paz, que não queria que a Faixa de Gaza tivesse acontecido. Israel age porque há complacência dos EUA, eu acho. Se não fossem os EUA permitirem, ele não faria o que está fazendo. Acho que tem uma certa subordinação histórica aí. As terras que foram demarcadas para o território palestino até hoje nunca foram respeitadas e estão sendo ocupadas por Israel sem nenhum critério ou respeito. Não temos embaixador em Israel e nem eles têm embaixador aqui. Temos 250 mil judeus que moram aqui e ajudaram nosso país a crescer e se desenvolver. Cheguei a pensar em romper relações, mas tem que tomar muito cuidado. Fico achando que, a todo mundo, o povo de Israel vai tirar o Netanyahu e eleger alguém democrático, civilizado e humanista, e aí a gente pode voltar a viver com mais tranquilidade.

A SITUAÇÃO DE CUBA É A MAIS GRAVE DA HISTÓRIA

A minha relação com Cuba é de paixão. Eu faço parte da geração que nasceu admirando a Revolução Cubana, o que não quer dizer que eu precise concordar com todas as políticas colocadas a partir da revolução. Eu, por exemplo, acho que a existência de partido único não condiz com a melhor prática do exercício da democracia para participar o povo, mas foi o jeito que eles encontraram de se organizar, e, como eu respeito o direito de autodeterminação dos povos, cada um toma conta do seu quintal. A situação econômica atual é a mais grave de toda a história. Está faltando comida, petróleo, medicamentos, energia elétrica, insumos médicos, tudo.

Eu imaginei que, quando Fidel morresse, os EUA iam flexibilizar o acordo com Cuba, depois veio Raul e também não conseguiu. Depois veio o Obama e deu uma pequena melhorada na liberação de recursos, mas depois veio o Trump e fechou tudo, depois o Biden também não fez muita coisa e agora Cuba está vivendo a situação mais crônica de toda a história desde a Revolução Cubana. Claro que o Brasil tem ajudado, o Brasil tem mandado remédio, comida, semente, a China e a Rússia também estão ajudando, mas ninguém consegue adotar um país. O que é preciso é um plano de recuperação de Cuba de médio e longo prazo, mas aí somente os cubanos deveriam fazer, eles poderiam ir ver o que deu certo no Vietnã, o que deu certo na China. Não vai ser o Lula a chegar lá e dar palpite. Ouvi que o Marco Rubio chegou a dizer: “Olha, se trocar o presidente, a gente vai flexibilizar”. Eles tão querendo uma Delcy cubana. Em Cuba não vai acontecer isso.

A RELAÇÃO DE LULA COM A VENEZUELA

Estou envolvido com a Venezuela desde que fui eleito, em 2003. Eu tinha só 25 dias de mandato quando fui à posse do presidente do Equador, o coronel Guterrez, e lá eu tinha uma reunião com Chávez. Nessa ocasião, propus ao Chavez a criação do Grupo de Amigos da Venezuela e fizemos o grupo. Quando foi 01h da manhã, Chavez já tinha ido embora, pois tinha um compromisso em Nova York, e o Fidel ainda estava lá e estava muito irritado, dizendo que estávamos entregando a Venezuela para o imperialismo, pois tínhamos colocado os EUA e a Espanha no Grupo de Amigos. Eu falei pro Fidel: “Não estamos criando um grupo de amigos do Chávez e sim da Venezuela, para ter relação com a situação e a oposição”, e deu certo, participou a Fundação Carter, o Aznar, o Colin Powell. Com Maduro foi mais difícil, pois ele não tinha a perspicácia política do Chávez. Quando foi ter eleição, falei que ele tinha que proceder com as eleições mais transparentes quanto fosse possível.

Quando chegou a eleição lá, eu ia mandar o Celso Amorim como observador e ele disse que não era para o Celso ir. Eu falei que tudo bem, mas que teria que comunicar a imprensa da decisão dele, ele então disse que Celso poderia ir, mas que teria que conversar com o ministro das Relações Exteriores dele. O Celso chegou lá e se reuniu tanto com o ministro dele quanto com o próprio Maduro e todos da oposição, e não identificou nenhuma denúncia de fraude no processo eleitoral. Então, pedimos que ele divulgasse as atas do processo eleitoral para que não pairasse dúvida. Ele não mandou, e eu não reconheci o resultado eleitoral, mas também não fiquei fazendo crítica. Aconteceu o que aconteceu. Segundo o que o Trump fala todo dia, a Delcy assumiu porque ele quis. O sequestro do Maduro não deixava claro que ela iria assumir, pois era vice do Maduro e integrante do partido.

INTERVENÇÃO DOS EUA NAS ELEIÇÕES DO BRASIL ASSUSTA?

Se os EUAS tentarem intervir nas eleições aqui do Brasil, me ajudaria muito. O que tenho acompanhado é que, agora mesmo, o vice dele foi na Hungria fazer campanha para o Orbán. Tenho visto o Trump dar palpite nas eleições de Honduras, Costa Rica, o que eu acho um absurdo, essa intromissão sem precedente na soberania de um país.

Aqui ele ainda não fez, mas meu adversário tem um filho lá que foi pedir pro Trump intervir no Brasil, um outro filho pedindo intervenção dos EUA aqui no Brasil. Acho isso um erro de comportamento, mas não tenho receio nenhum, não me tira o sono.

OS EUA, O PCC E O CV

Não causa preocupação, pois temos clareza sobre o que significa o PCC e o Comando Vermelho, está tipificado na legislação brasileira e nós vamos combater essa gente. Essa guerra é nossa e não dos EUA. Aprovamos agora a lei Antifacção, que vai nos permitir ter uma ação muito mais poderosa para enfrentarmos essas organizações. O que nós queremos fazer em parceria com os EUA é no combate ao narcotráfico, crime organizado e tráfico de armas. Na medida em que o presidente Trump queira jogar sério nessa coisa, o Brasil será parceiro, pois nós queremos eliminar o crime organizado.

BRASIL PODE SER POTÊNCIA ECONÔMICA MUNDIAL?

O Brasil tem tudo para estar entre as 4 ou 5 maiores economias do mundo. Precisamos aproveitar o potencial das terras raras, dos minerais críticos e da transição energética de que o mundo precisa, não há como não darmos esse salto de qualidade. Estamos, nesse instante, virando o celeiro do mundo, com 40 milhões de hectares de terra para recuperar e plantar o que a gente quiser.

Eu tinha feito uma indústria naval que chegou a 86 mil trabalhadores, eles desmontaram e derrubaram para 15 mil, retomamos e já conseguimos recuperar para 50 mil outra vez.

MESSIAS NO STF

A indicação é pela capacidade do conhecimento jurídico que ele tem e contribuição para o Estado brasileiro e nossa Constituição. Eu espero que ele encha de orgulho o povo brasileiro por ter um ministro da Corte desse porte.

NEYMAR VAI PARA A COPA?

Eu tive a chance de conversar com o Ancelotti, e ele perguntou se eu achava que Neymar deveria ser convocado. Eu falei: “Olha, Ancelotti, se ele tiver fisicamente preparado, ele tem futebol. Eu preciso saber se ele quer. Se ele quiser, tem que ser profissional, pode se espelhar no Cristiano Rolando, no Messi, porque ele é novo ainda, mas tem que ir pelo futebol e não pelo nome”.

 

 

Thiago Suman
Jornalista com atuação em rádio, TV, impresso e online. É correspondente do Daily Mail, da Inglaterra, apresentador do DCMTV e professor de filosofia e sociologia, além de roteirista de cinema e compositor musical premiado em festivais no Brasil e no mundo