Os Meninos do Morumbi estão em grandes dificuldades — e o que você tem a ver com isso

meninos do morumbi

 

 

Flávio Pimenta está sentado num sofá de três lugares numa sala da sede do Meninos do Morumbi, a ONG que fundou há 16 anos e pela qual já passaram 14 mil garotos. Aos 55 anos, Flávio fala muito e fala rápido, os cabelos presos num rabo de cavalo, uma certa ansiedade. Sua organização está com problemas financeiros. O Meninos do Morumbi deve mais de 600 mil reais e não há solução à vista num prazo curto.

Ele já teve mais de mil crianças usando as instalações do edifício. Hoje são 600, de 5 a 12 anos. Elas tomam café da manhã e almoçam na sede de três andares. A exigência é que vão bem na escola e não se envolvam com crimes ou com drogas. A grande maioria vem da favela de Paraisópolis, relativamente vizinha. Cinquenta crianças tocaram há duas semanas no show do guitarrista John Mayer no Anhembi, em São Paulo. Abriram a noite e tocaram com Mayer a primeira canção. Pimenta, o band leader, estava no palco regendo a molecada. “O Mayer é gente fina”, diz.

Não é a estreia dos Meninos do Morumbi em eventos desse tipo. Já tocaram nos EUA, na Inglaterra, na França. Já receberam a visita de um presidente americano (Bush), um secretário de Estado (Colin Powell), um primeiro ministro (Tony Blair) e muitos políticos brasileiros (em época de eleição). Madonna também esteve lá numa de suas incursões para melhorar sua imagem. Pegava bem aparecer com os Meninos do Morumbi, como atestam as centenas de fotos de gente famosa penduradas nas paredes. Pouco disso reverteu em ajuda concreta.

A ONG já teve bons patrocínios, como o do Pão de Açúcar. Durou sete anos. Acabou. Apesar de estar inscrito na Lei Rouanet, Pimenta diz que, desde que as empresas montaram suas próprias fundações, o MM deixou de ser atraente para elas. Depois de uma reunião com a GV, acabou fechando alguns almoços e cafés com executivos de multinacionais. A Coca-Cola vai patrocinar encontros durante a Copa do Mundo. Os homens comem, apreciam o espetáculo dos garotos e deixam um dinheiro.

Isso não tapa o buraco, segundo Pimenta. Um convênio com a prefeitura, que reembolsava parte do que se pagava de ISS, termina neste mês. Pimenta rejeita o rótulo de assistencialista. “Nós somos uma banda”, diz ele. “Mas precisamos de doações para sobreviver”. O filho de Roberto Carlos, o Segundinho, costuma ter o nome ligado ao MM por causa de uma capa da revista Caras em que ele aparecia com o grupo. “Segundinho foi meu aluno, mas nunca nos deu nada”, diz Pimenta. “Nenhum morador do Morumbi, o lugar onde estamos, nos ajuda em nada. Nós somos invisíveis para o Morumbi”.

Pimenta tem mandado emails para seu mailing pedindo uma colaboração. Define sua ONG como uma “boa armadilha”. Acha que a criança entra lá e encontra um espaço para “bons valores”. Quando é necessário (no caso de furto ou briga, digamos), ele chama os pais para uma conversa. Se for necessário, apela para a suspensão. Ele, que já tocou com muita gente da MPB (foi baterista da primeira formação do Joelho de Porco e acompanhou Elis Regina, Belchior, entre outros), se orgulha dos alunos que estão em Berkeley e dos que trabalham em Dublin. “Nosso sonho é ser auto-sustentáveis”, diz.

Os Meninos do Morumbi vão se apresentar na meia-maratona de São Paulo, dia 6 de outubro. Você pode vê-los na corrida. Ou, se preferir, pode aparecer num dos ensaios no meio da semana. O endereço está aqui. Os meninos agradecem.

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