Os mortos por covid-19 e as lágrimas guardadas para o pequeno Henry. Por Ruth Rendeiro

O menino Henry Borel, de 4 anos, — Foto: Reprodução

Originalmente publicado em FACEBOOK

Por Ruth Rendeiro

O rosto que eu não vi

– Conhecias o Zezinho da D. Lourdes? – Morreu

– Soubeste que o Beto foi intubado?

– A Meire, filha da D. Custódia, não resistiu.

Quantas vezes nos indagaram sobre pessoas que nem sabíamos estar doentes? A banalização da morte está me assustando, me tornando imune aos números que só crescem. Números sem rostos.

Tenho sim meus rostos… Os que fizeram parte da minha história e que me acompanham antes de deitar e me perturbam pela ausência definitiva, me dão certeza do abraço que nunca mais existirá. Cada dia uma dor nova a se apresentar e assustar. A lista infindável dos que foram antes de mim.

Lembramos do primeiro a morrer, os primeiros 100 falecidos, os mil que sucumbiram à Covid e abalaram, os 100 mil que inauguraram o grupo do centésimo de milhar e viraram manchete. Hoje são mais de quatro mil todo dia, uma notícia a mais na TV ou na internet. Matérias que não falam mais de gente e se detêm na falta de insumos, na lentidão da aplicação das vacinas ou nos leitos inexistentes. Leitos pra quem? Para um pai de família, uma mãe trabalhadora ou uma avó amorosa? Não importa. Estamos anestesiados pelos números.

Um amontoado de corpos que só se reconhecem como cadáveres quando chegam aos cemitérios, enterrados sem homenagem, sem um último beijo ou um aglomerado de parentes e amigos. Nenhum ente querido presenciou a morte no hospital no CTI, na maca ou em uma cadeira. Ninguém segurou a mão até perceber que aquele suspiro era o último. Em sacos pretos, muitos por horas à espera do caixão, uma silhueta podia indicar ser o irmão mais velho: gordo, alto, grande, mas não há tempo. É preciso desocupar o lugar, o caixão chegou. Há mais dez corpos esperando.

Nos acostumamos com as recomendações ressaltadas quase mecanicamente pelos jornalistas ou carregadas de apelo e prestes a desistir dos que morrem um pouco a cada dia no corre-corre dos corredores dos hospitais. Usem máscara sempre, mãos sempre higienizadas, distância de aglomerações e o simples e eficiente: fique em casa! Mas a surdez se uniu à apatia. As baladas se multiplicam a cada final de semana, as praias amorenam os corpos, nos shoppings há sempre o que comprar nem que seja uma calcinha nova, talvez para ser usada no dia do enterro. Deve ser o prazer da adrenalina de desafiar o vírus ou a morte.

– Lembra do seu Agostinho? Nem chegou a intubar. – Já estava muito velho…

– Coitada da filha da Margarida, não tinha nem 50 anos…

Nomes que nada dizem, que a mídia tradicional já desistiu de nominar, homenagear. Não há como identificar milhares a cada 24 horas. Como diz o Chico Buarque “a dor da gente não sai no jornal”.

Não choramos pelos mais de 20 mil que morreram nessa última semana. Guardamos as lágrimas para o pequeno Henry. O menino de rosto feliz, alegria e ingenuidade infantil. Ele nos aliviou o peito e, em pranto, desidratei de raiva pela maldade, irresponsabilidade, incompetência, insensibilidade dos adultos, dos políticos, dos que podem evitar as lágrimas, diminuir a dor, minimizar as mortes.

Tá cada dia mais difícil.

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