Os protestos do MPL conseguirão isolar os baderneiros?

Nosso repórter viu o momento em que a turma que depredou a prefeitura virou um grupo à parte.

O carro da Record é depredado
O carro da Record é depredado

 

O MPL está tentando se desvincular da tal “minoria de vândalos”. E vice-versa. Na segunda-feira, em São Paulo, centenas de microgrupos (às vezes não mais que 3 indivíduos), acompanhavam a massa e logo eram contidos a cada início de pichação. Ontem foi diferente.

Ainda com os pés doloridos pelas mais de 6 horas de caminhada do dia anterior, juntei-me novamente “aos protestos” (assim, no plural, pois são vários), agora na Praça da Sé. As diferenças para o dia anterior eram gritantes. O perfil era radicalmente diverso. Adeus mauricinhos e patricinhas que posaram para fotos em frente ao shopping fazendo o gênero “olha eu na passeata”. A turma na Sé parecia com os nervos mais à flor da pele e cara de poucos amigos. Uma equipe da Globo foi encurrala e refugiou-se dentro de um bar. A invasão era iminente e o bar fechou as portas. Todas as demais equipes de TV começaram a ser ameaçadas e foram embora. Alguns safanões sobraram.

Os partidos políticos, se estavam lá, não trouxeram bandeiras, motivo de tantas brigas na segunda.

Saímos da Sé na direção da Prefeitura. Não se sabe muito bem para onde se vai (isso não mudou). A todo instante breca-se o cortejo e decide-se o que fazer. “Prefeitura!”, alguns gritaram, e lá se foi a manifestação. O número de participantes era um pouco menor que o do dia anterior (65 mil contra 50 mil).

A Prefeitura, a Guarda Civil Metropolitana e um carro da TV Record já nos aguardavam, protegidos por grades metálicas que nos continham a cerca de 40 metros da porta. Um cordão de policiais com escudos se estendia ao longo de toda a fachada. A multidão foi engordando rapidamente.

Uma infinitude de impropérios é dirigida à polícia, aos repórteres, ao prefeito, ao governador, à presidente. Isso dura uns 15 ou 20 minutos. Algumas das lideranças, contrárias ao vandalismo e à violência, percebem o risco e puxam o coro “Vamos para a Paulista!”.

Cria-se uma ruptura fundamental a partir desse instante.

Uma ala mais radical quer permanecer no local. Os microgrupos de 3 vão se aglutinando. “A Prefeitura é aqui, vamos para a Paulista fazer o quê?”. Com o início da debandada parcial, percebo uma nova onda de rostos chegar, totalmente diferente daqueles que estavam a meu lado. Os gritos de “Vamos invadir” não demoram. Grades são derrubadas ao som de vaias da facção pacífica. O grupo avança em direção aos policiais que se aglomeram em frente à porta. Vou junto. O carro da TV Record agora está desprotegido, no meio do povo. Uma quantidade de objetos é arremessada na polícia. Logo aparecem pedras e a coisa fica muito mais violenta e perigosa.

Será preciso abrir a porta para a tropa refugiar-se dentro do prédio e isso, claro, é feito. É a senha para a massa avançar vorazmente. Muito assustados, os últimos guardas tiveram pior sorte. Foram os mais atingidos e, obviamente, aspergiram spray de pimenta em todas as direções. Tarde demais para mim, sinto fogo nos olhos, nariz e garganta. Veio então uma bomba sorrateira. Não foi arremessada por cima das cabeças. Espertamente um policial a fez rolar por baixo sem que ninguém percebesse. Explodiu a 1 metro de mim. Macho que sou, consegui gravar o vídeo abaixo.

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A partir daí, foram vários minutos de depredação da fachada. Um embate violento entre facções também eclodiu. A turma do “sem vandalismo” contra a turma do “sem moralismo” (os gritos eram esses mesmos). Apesar da intensidade, achei que aquilo se extinguiria como nas vezes anteriores. Decidi seguir a multidão “do bem” que ia rumo Paulista. O furgão para links ao vivo da Record seria incendiado pouco depois.

Criou-se um vácuo entre os dois blocos. Estava clara a divisão dos que ficariam no centro para tocar o terror. Apesar de minoria, não estavam mais dispersos como nos dias anteriores. Eram centenas e haviam se desvinculado do pessoal “sem violência”.

A exigência do tudo ao mesmo tempo agora é impossível de se atender. Os líderes do MPL reafirmaram que sua briga é pelo preço da tarifa e, sintomaticamente, isso rachou o protesto.

Os vândalos foram para o outro lado. Mas isso não significa que não estarão no próximo protesto. E nada indica que, se a tarifa baixar, eles voltarão para suas casas. A luta deles continua – seja ela qual for.