Os recuos de Bolsonaro, além de despreparo, demonstram fraqueza política. Por Carlos Fernandes

Jair Bolsonaro. Foto: Evaristo Sá/AFP

No exato momento em que escrevo esse artigo ­- e é preciso que isso seja dito dada a profusão e velocidade com que o governo volta atrás nas suas decisões – o último recuo de Bolsonaro é sobre a saída do Brasil no Acordo de Paris.

A informação foi dada nesta segunda (14) pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, o sujeito que ocupa um cargo que por si próprio deve a sua atual existência a outro recuo.

Mais do que indiferente à pauta ambiental justamente no país que detêm a maior reserva biológica do planeta, a subserviência às práticas predatórias do agronegócio o levaram a trombetear aos quatro ventos a saída do país de um acordo climático referendado por praticamente todas as nações do mundo.

A reação global foi equivalente ao despautério.

Antes mesmo de Bolsonaro tomar posse, o presidente da França, Emmanuel Macron, mostrou ao então presidente eleito numa única declaração que ele não pode falar com o mundo como quem fala com a horda de ignorantes que o elegeu.

Incisivo e mostrando suas armas (bem mais poderosas que as bate buchas que seus eleitores desejam comprar com um salário mínimo de R$ 998,00), Macron declarou que a possibilidade de seu governo apoiar o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul dependia diretamente da posição do iniciante sobre o Acordo Climático de Paris.

Não deu outra. Sua valentia sobre o tema não passou do início da segunda semana de governo. Como em tantas outras matérias em tão pouco tempo, o jeito foi dar meia volta e conceder de bandeja mais uma prova que não tem preparo nenhum para o cargo.

Vergonha passada, “por ora, a participação do Brasil está mantida”, confirmou Salles.

No seu já extenso cardápio de recuos, o até agora recordista em velocidade veio do Ministério da Educação através do desastroso edital que autorizava erros, propagandas, reimpressões e ausências de referências bibliográficas nos livros didáticos a serem distribuídos aos alunos do 6º ao 9º ano.

Em menos de 24 horas, dada a estrondosa repercussão em toda a sociedade civil, viu-se uma correria insana para apontar culpados e desfazer a lambança.

Não que as alterações ali propostas fossem estranhas aos atuais ocupantes do Palácio do Planalto e da Esplanada dos Ministérios, pelo contrário. O que ali foi exposto estava em plena observância ao que se espera de adoradores de Olavo de Carvalho.

Se voltaram atrás, portanto, é porque não possuem capital político e apoio popular suficientes para bancar absurdos dessa magnitude.

E aqui chegamos ao cerne da questão.

O governo Bolsonaro, diante tantos vacilos, práticas de nepotismo e casos de corrupção, derrete perante a opinião pública numa rapidez que nenhum outro presidente pós-redemocratização jamais experimentou.

Não são poucos os brasileiros que já demonstram arrependimento pelo voto que deram.

A continuar nesse ritmo, o que ainda sobra de respaldo no seu eleitorado menos fanático será rapidamente extinto ao ponto de não sobrar mais do que pequenos feudos de apoio nos setores mais conservadores e retrógrados da sociedade.

Base do que acima está exposto, é preciso lembrar que conforme demonstrado pela pesquisa Datafolha, a maioria da população é contra medidas caras ao governo Bolsonaro como a reforma trabalhista e as privatizações.

Sabedor que a sua vitória no pleito não representa de nenhuma forma a maioria do povo brasileiro, Bolsonaro recua porque tudo que fez até agora agride frontalmente até aqueles que lhe deram o mandato.

Trata-se de um paiol à espera de sua explosão.

Diante tudo, ironia das ironias, fica claro que as únicas medidas louváveis que fez até agora foi justamente voltar atrás daquilo que um dia pretendeu fazer.

Bolsonaro, por assim dizer, em apenas 14 dias de governo chegou à impressionante situação política em que se pode afirmar que é um presidente que faz mais e melhor justamente quando não faz nada e deixa tudo como já estava.

É realmente um mito.

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