Otoni de Paula diz que se arrependeu de chamar Bolsonaro de “mito”

Atualizado em 27 de novembro de 2025 às 18:24
O deputado federal Otoni de Paula. Foto: Divulgação

O deputado federal Otoni de Paula voltou a marcar distância do bolsonarismo ao fazer um discurso duro na tribuna da Câmara, no qual afirmou se arrepender de ter tratado Jair Bolsonaro como “mito”. Pastor da Assembleia de Deus Missão, ele disse que prefere “andar sozinho do que mal acompanhado” e declarou não querer mais ser identificado como “extremista”.

A fala ocorreu um dia após o trânsito em julgado da condenação de Bolsonaro e de outros sete integrantes do núcleo central da tentativa de golpe. “Me arrependo quando gritei mito num lugar onde só deveria cultuar o Senhor. A culpa nunca foi de Bolsonaro. A culpa foi minha mesmo”, afirmou. “Estou envergonhado, porque não parecia um pastor. Parecia um louco, que acha que tudo se resolve na bala e no tiro.”

Durante o governo Bolsonaro, Otoni atuou como vice-líder no Congresso e manteve alinhamento público com o Planalto. A ruptura, no entanto, vem se consolidando desde o ano passado, quando o deputado passou a adotar posições consideradas moderadas e até simpáticas ao governo Lula.

Um dos casos mais comentados foi a homenagem que fez ao presidente ao agradecer pela criação do Dia Nacional da Música Gospel, gesto que lhe rendeu críticas de lideranças evangélicas bolsonaristas. O afastamento político se aprofundou na eleição municipal do Rio em 2024.

Otoni atuou como articulador da campanha de reeleição do prefeito Eduardo Paes, contrário ao nome defendido pelo bolsonarismo, o deputado Alexandre Ramagem. A movimentação ampliou o desgaste com aliados de Bolsonaro, que passaram a tratá-lo como dissidente.

O deputado federal Otoni de Paula e o ex-presidente Jair Bolsonaro. Foto: Divulgação

Em fevereiro, outro episódio sinalizou perda de espaço no campo conservador: Otoni foi derrotado na disputa pela presidência da Frente Parlamentar Evangélica. O eleito foi Gilberto Nascimento (PSD-SP), candidato apoiado por Bolsonaro.

A derrota reforçou a leitura de que o deputado já não integrava mais o núcleo de confiança do ex-presidente. O parlamentar também tem defendido posições que dialogam com o governo federal. Recentemente, elogiou a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal, após o anúncio da aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso.

Otoni também fez críticas públicas à megaoperação do governo Cláudio Castro contra o Comando Vermelho, que terminou com 122 mortos. A ação recebeu apoio de políticos bolsonaristas e parte da bancada da segurança pública, mas o deputado avaliou que a operação teve excessos.

No discurso, ele também revisitou posições antigas e afirmou ter abandonado narrativas que, avaliou, incentivavam intolerância. “Ao invés de ficar ao lado da Justiça, eu preguei que bandido tem que morrer. Em vez de denunciar o pecado do racismo, preferi dizer que racismo não existe na minha nação”, afirmou. “Em vez de ser a favor da equidade, resolvi ser a favor da tal meritocracia. Como se filho de pobre pudesse concorrer com o rico.”

Guilherme Arandas
Guilherme Arandas, 27 anos, atua como redator no DCM desde 2023. É bacharel em Jornalismo e está cursando pós-graduação em Jornalismo Contemporâneo e Digital. Grande entusiasta de cultura pop, tem uma gata chamada Lilly e frequentemente está estressado pelo Corinthians.