Pablo Ortellado e a sua obsessão pela simetria. Por Priscila Figueiredo

Pablo Ortellado. Foto: Arquivo Pessoal

PUBLICADO ORIGINALMENTE NO PORTAL OUTRAS PALAVRAS

“O principal intelectual do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, também tenta ampliar sua ascendência sobre a Polícia Militar com um programa de bolsas gratuitas para seu infame curso online de filosofia.

Até mesmo a esquerda brasileira, que já teve penetração em associações de praças, tenta agora uma politização menos disfarçada com a formação do movimento de policiais antifascismo.”i

Pablo Ortellado gosta de simetria –se um lado peca, o outro também há de pecar (talvez seja um sintoma neurótico-obsessivo, não sei, cuja formação mesmo aqueles brinquedos infantis de peso e contrapeso não puderam evitar). O ideal é que ambos os lados se destruam como dois gêmeos míticos para voltarmos ao santo Ser, uno, indiviso e originário.

“Até mesmo a esquerda brasileira”… ATÉ MESMO! O “menos disfarçada” também parece um qualificativo detrator. Bons tempos em que a esquerda disfarçava mais! Agora ela não tem vexame e tenta formar policiais contra o fascismo! Que coisa feia! Formar para o fascismo é lamentável; não menos lamentável, sejamos justos, é formar para o antifascismo!

O “até mesmo” garante a Pablo Ortellado um lugar no centro anódino — ou, como a água, incolor, insípido e inodoro. Deus é onisciente, onipresente e onipotente. Os três adjetivos para Deus sempre me lembraram, nem que fosse pela cadência, os três adjetivos para o H2O. Água e Deus – não deixam de ser duas substâncias primevas conforme uma escola filosófica ou outra. Agora aquela tríade me lembra também o Pablo Ortellado — e sua posição centrista, neutra, inodora. Ou onisciente? Ou supra-sensível? Ou onipotente?

Em todo caso, ele concede que a disputa (entre fascismo e antifascismo) pela polícia teria “uma dimensão mais ou menos legítima”– não que o seja mais num caso e menos noutro. Não, não, não. A disputa mesmo é que é em si saudável, embora só um pouquinho, pois significa a “expressão de diferentes concepções sobre a política de segurança pública”. Diversidade e pluralismo é sempre bom. Mas, e aqui se explicita a razão do “mais ou menos”, o elemento graduador, “em momentos de “profunda crise política” (que ele não parece debitar, nem um pouquinho, ao fascismo emergente), “seria ingênuo não vê-la também como uma iminente ameaça à democracia”. A polarização no caso das forças de segurança pública (digamos, uns 80% ou mais de um lado e 20% de outro) até que é saudável e democrática, pois todo mundo pode dar o seu pitaco, mas não serei bobo de não ver aí um pirigo!

IMINENTE AMEAÇA À DEMOCRACIA. Esse clichê em toda parte aborrece, além de me fazer imaginar a democracia como uma casa sólida e concreta, em direção à qual se dirigem tufões ou bandoleiros, que moram fora dessa casa. Talvez possamos contratar uma agência de seguros ou uma boa tecnologia japonesa para deixar o edifício elástico, mas não vulnerável.

Temo o momento em que “os mornos serão vomitados” entre os polos bem polarizados antes que estes derretam, e eles, os mornos, não estarão aqui para ver o que tanto desejaram.

i “A politização da polícia”, Folha de São Paulo, 25/02/2020.

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