Pacto de elites torna a política de juros altos invencível. Por Paulo Henrique Arantes

Atualizado em 7 de julho de 2026 às 9:35
Sede do Banco Central do Brasil. Foto: reprodução

Dentre todas as guerras internas brasileiras, a mais persistente é aquela em que se encontram, de um lado, trabalhadores que respondem pelo comércio, a indústria, a agricultura e os serviços, e, de outro, os ungidos do capitalismo que vivem do mercado financeiro e do juro alto. A invencibilidade da política monetária ortodoxa permanece a despeito de uma inflação controlada, de um governo que discursa pelo desenvolvimentismo e que promove ganhos sociais, mas que não quebrou a máxima fiscalista dominante: a elite financeira e a mídia a serviço dela sempre dirão que o governo gasta muito. E o governo continuará cheio de dedos no enfrentamento delas.

“Há um pacto entre elites de modo a pressionar os juros reais brasileiros, disparatados diante de todos os demais. Elas enriquecem e pressionam via mídia, culpando os gastos sociais do governo por forçar a demanda agregada e provocar a inflação. Ora, nossa inflação não é de demanda! Está baixa e controlada em comparação histórica”, afirmou à coluna o economista Fernando Nogueira da Costa, professor titular do Instituto de Economia da Unicamp e ex-vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal.

Não há novidade na constatação – a mídia progressista vem batendo nessa tecla há décadas. Só que não adianta, como comprova a atuação de Gabriel Galípolo no Banco Central, um quadro ético e competente, mas nada disposto a quebrar a o poder determinante da alta finança na economia. A Selic a 14,25%, depois de baixas sucessivas, não tem nada de alvissareira. É inaceitável num país que pretende crescer.

A política monetária não estimula quem quer lucrar com trabalho e produção, é dinheiro multiplicando dinheiro e concentrando renda. Tome-se o segmento Private Banking, voltado a clientes de alta renda, como citado por Nogueira da Costa à coluna. Dez milhões de reais renderão em torno de 116 mil reais mensais com a taxa de juros a 14,25%. Esse investidor ganhará mais de 5 mil reais por dia útil.

Gabriel Galípolo, presidente do BC. Foto: reprodução

“Há um pacto para cobrir os encargos financeiros, com maior enriquecimento da elite, e os gastos sociais com os mais pobres. É uma forma de conciliação do conflito distributivo em uma sociedade desigual e antagônica”, nota o professor da Unicamp. Prevalece ainda o argumento de que os juros elevados evitam que o Brasil se torne uma Argentina, submetida a uma dolarização provocada por potencial fuga de capitais. “Ao contrário, ao apreciar a moeda nacional diminui-se a ‘inflação importada’ em uma economia desnacionalizada ou globalizada”, adverte Nogueira da Costa.

O economista Paulo Gala, professor da Fundação Getúlio Vargas, vê a política monetária em vigor no Brasil como resultado de um “trauma inflacionário”, talvez pela hiperinflação que nos atingiu no fim da ditadura e nos anos iniciais da redemocratização, mas também pelos exemplos de países como Argentina e Turquia. Gala considera que o “pacto ortodoxo” brasileiro, até agora, tem se mostrado invencível.

Resta indagar aos oráculos da ortodoxia o que um país como o Brasil de hoje, com inflação de 4,7% em 12 meses, tem em comum com Argentina e Turquia.

A Argentina enfrentou uma das piores crises inflacionárias de sua história recente, com o índice de preços acumulado superando os 200% ao ano no início de 2024. O cenário provocou explosão da pobreza. A disparada dos preços corroeu os salários de forma tão rápida que o índice de pobreza no país ultrapassou a marca histórica de 50% da população. O povo perdeu totalmente a confiança no peso. Os cidadãos passaram a precificar imóveis, carros e serviços diretamente em dólares, além de estocar a moeda americana fisicamente (“no colchão”) para proteger suas economias. O caos resultou na eleição do doido varrido Javier Milei, que obtém ganhos na luta contra a inflação à custa do sofrimento da população.

Na Turquia, a inflação chegou a romper a barreira dos 75% ao ano em meados de 2024. Os desdobramento da crise incluíram o derretimento da lira turca. O custo de vida disparou de forma drástica, afetando gravemente habitação, educação e itens básicos de consumo. Para evitar o colapso total, o governo passou a elevar agressivamente a taxa básica de juros, a patamares próximos a 50% ao ano. Isso gerou uma desaceleração forçada na economia, reduzindo a inflação para a casa dos 32%. Não perguntem o que aconteceu com a população mais pobre da Turquia

O que a coluna chama acima de “pacto entre elites”, Nelson Marconi, professor da Fundação Getúlio Vargas, chama de “coalisão política, da qual o governo faria parte. “O governo é partícipe, já que é ele que define a meta de inflação”, aponta o economista.

“Essa coalisão envolve o setor financeiro, que tem um poder muito forte do ponto de vista político e que acaba determinando a política monetária, acaba determinando a política econômica. Como desde o começo se manteve a meta de inflação (3%), abre-se espaço para o Banco Central manter uma política de juros altos para buscar essa meta inalcançável ou muito difícil de alcançar, a não ser em períodos muito específicos da economia, como a valorização excessiva do câmbio ou com uma recessão muito grande. Essa é a questão”, explica Marconi.

Essa “coalisão”, avalia Marconi, governa o país de fato há muito tempo. “É preciso uma política monetária e uma política fiscal que sejam responsáveis, privilegiando os investimentos, controlando os gastos correntes, controlando a inflação, mas que sejam orientadas para o desenvolvimento. A gente não tem aqui uma política econômica orientada para o desenvolvimento”, constata.

Paulo Henrique Arantes
Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "O que a Vida quer é Memória - O Brasil de Lula no Mundo de Trump” (Editora Autografia). Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com).