“Pague, estúpido”: a Ryanair e seu jeito malcriado de tratar os passageiros

Michael O'Leary, CEO da Ryanair: como tratar os passageiros como gado

Vou confessar uma coisa: tenho saudade da velha Varig. Sim, a velha Varig. Aquela mesma, aquele símbolo do que um dia se chamou entulho autoritário. Voar era sinônimo de aeromoças bonitas, aeroporto vazio e comida relativamente quente e decente. Até os acidentes tinham mais glamour. E, então, surgiu um fenômeno que desgraçou o que décadas de aviação haviam construído: o fenômeno das low-cost, as companhias aéreas que se aproveitaram da desregulamentação do mercado para baixar os preços, e o nível.

Muita gente acreditou que as low-cost iriam, enfim, dar cabo das malvadas gigantes que faziam o que queriam conosco. Voar tornou-se acessível para milhões de pessoas. Elas viraram heroínas dos sem-passagem. Hoje, sabemos que as low-cost estão atrás da mesma coisa: lucro. O maior símbolo disso é a inglesa Ryanair.

A Ryanair fatura mais de 1 bilhão de dólares em cobranças extras, excesso de bagagem, comida, seguro etc. É campeã em reclamações. Recentemente, indo de Londres a Roma, um amigo pagou uma taxa extra de 80 libras porque não havia impresso papel do check-in em casa. Mais 80 foram pagas porque a mala estava 1 quilo mais pesada. Essas informações são dadas por funcionários mal-educados e secos que sabem que faturam com cada minuto de dor de cabeça do cliente.

A arrogância é uma contaminação do CEO Michael O’Leary, um célebre pitbull dos ares. Na semana passada, O’Leary chamou os passageiros que esquecem de imprimir seus bilhetes de “estúpidos”, entre outros impropérios. Tudo porque a dona de casa inglesa Suzy McLeod reclamou de ter de desembolsar 236 libras para ela, seus pais e seus dois filhos pelo papel. Sua reclamação teve o apoio de 350 mil pessoas no Facebook.

Para completar, o embarque é confuso, as poltronas são duras e não inclinam, a bandeja é de plástico barato e as comissárias também. Da próxima vez que você pensar em fazer economia, lembre-se daquela musiquinha: “Varig, Varig, Varig”. Não é porque você paga “pouco” que tem de ser tratado como lixo. Não precisa ser primeira classe. Mas chega de falta de classe.

O serviço de bordo da Varig nos anos 70: ok, era estatal etc etc. Mas você conseguia respirar na econômica

E agora, com vocês, o pensamento vivo de Michael O’Leary:

. “Você não terá um reembolso, então vá se f****. Nós não queremos ouvir suas histórias tristes. Que parte de “sem reembolso” você não entendeu?”

. “As pessoas dizem que o freguês tem sempre razão, mas sabe de uma coisa — não tem. Às vezes ele está errado e alguém precisa dizer isso”.

. “Nós queremos irritar os p****as dos ambientalistas. A melhor coisa que você pode fazer com um ambientalista é dar um tiro nele. Esses maconheiros querem manter as viagens de avião um privilégio dos ricos.”

. “Se nós transportamos pessoas ricas? Sim, eu viajei hoje e eu sou muito rico”.

. “Eu acho que a pessoa mais influente dos últimos 20 ou 30 anos é Margaret Thatcher, que deixou um legado que está nos levando a pagar menos impostos e ser mais eficientes. Sem ela, nós estaríamos vivendo em alguma p***a de república francesa”.

. “Estudantes com MBA chegam com o papo: ‘minha equipe é meu patrimônio mais importante”‘. Bobagem. Equipe é geralmente seu maior custo. Nós empregamos alguns preguiçosos que precisam de um chute na bunda, mas ninguém admite isso”.

E não é que estou começando a gostar do cara…?

"A melhor coisa que você pode fazer com um ambientalista é dar um tiro nele"

 

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