
Cada dia que passo vivendo como uma mulher me traz mais certeza: nenhuma de nós é tão julgada quanto uma mãe.
Imagine: um pai mata o filho a tiros, deixa o caçula em estado gravíssimo, mas a mãe tem que sair do velório às pressas sob ameaças e insultos.
Não é preciso imaginar. Aconteceu em Itumbiara (GO).
O secretário de governo da prefeitura do município, Thales Naves Alves Machado, atirou para matar os dois filhos antes de tirar a própria vida.
Um morreu e o outro segue em estado gravíssimo.
É fácil ler como tragédia, e é uma tragédia, mas ninguém percebe o peso da cruz sobre os ombros dessa mãe?
Ela ficou viúva e perdeu um filho. Teme terrivelmente perder outro. E a sociedade, que tanto fala em empatia sobretudo no discurso oficial, só consegue apedrejá-la.
Detalhe: a polícia descartou participação de outras pessoas no crime. O homem agiu sozinho.
A mãe estava viajando a São Paulo quando o crime brutal aconteceu — uma viagem comum, que qualquer homem faria sem ser insultado e apontado como culpado pela morte dos filhos.

Para um homem, é preciso muito mais pra sofrer qualquer acusação do gênero. Às vezes, nem matar os próprios filhos choca: a responsabilidade é sempre da mãe, o sexo frágil, as criaturas mais fortes que já conheci.
Aguentam de tudo, porque sempre aguentaram.
Não bastasse a dor de perder o filho e o marido com quem se casara há 15 anos — por mais desgraçado que ele seja, uma viuvez, um golpe —, ainda é preciso que a culpa seja jogada sobre seus ombros, seja por ter viajado e deixado os filhos “sozinhos” (com o pai????), seja por ser acusada de participar do crime, sem qualquer suspeita formal.
Também não é preciso suspeita formal. Nada é tão fácil na sociedade que odeia mulheres quanto apontar as mães: elas fazem em geral um excelente trabalho, mas se cobram e são cobradas desumanamente e estão sempre no banco dos réus, não importa o quanto se esforcem.
Esse ódio às mães é sistemático: um sistema que as aprisiona em uma teia moral e lhes exige perfeição sobrehumana conduz um verdadeiro projeto de culpabilização e controle.
Esse mecanismo opera de forma tão naturalizada que raramente é nomeado: a maternidade é convertida em função pública, permanentemente vigiada e avaliada, como se cada decisão privada fosse passível de julgamento coletivo. Não se trata apenas de expectativa social, mas de uma disciplina moral que transforma cuidado em obrigação absoluta e falibilidade em culpa — uma lógica que desumaniza mulheres ao negar-lhes complexidade, limite e contradição.
A mulher perdeu o filho. Sabe-se lá o que vinha vivendo antes do estopim.
Ela ficou pra contar a história trágica, e pra ser apontada como culpada por ela, mesmo que isso não faça o menor sentido.
A maioria dos comentários nojentos culpando a mulher estão associadas a perfis declaradamente bolsonaristas. O que emerge daí não é só ruído digital — é um reflexo social profundamente enraizado: a necessidade quase automática, sobretudo do bolsonarismo que odeia mulheres, de transformar a dor de uma mãe em suspeita, de deslocar a violência masculina para o campo da responsabilidade feminina, como se a maternidade fosse um cargo de vigilância permanente e não uma experiência humana atravessada por limites e vulnerabilidade.
Esses julgamentos estão afetados invariavelmente pelo puro suco de misoginia à brasileira: atacando uma mãe com violência moral que insiste em punir quem ficou viva para sofrer, como se sobreviver já fosse um crime, exclui-se a responsabilidade de quem acionou o gatilho e uma mãe é apontada só por ser… Mãe.
Talvez o mais brutal dessa história não seja apenas o crime, mas o reflexo coletivo que ele revela — o impulso automático de transformar dor materna em suspeita.
Enquanto continuarmos tratando mães como responsáveis por tudo, inclusive pelo que jamais controlaram, estaremos apenas reafirmando a violência simbólica que sustenta esse ciclo. Porque quando uma mulher perde um filho e ainda precisa provar sua inocência ao mundo, não é ela que fracassou — é a sociedade inteira.