Palavra do irmão: Mauricio Macri é o chefe de um esquema mafioso. Por Moisés Mendes

Originalmente publicado em BLOG DO MOISÉS MENDES

Por Moisés Mendes

Os argentinos sabem há muito tempo quem é Mauricio Macri. Mas agora têm, em detalhes, a revelação da face nem sempre submersa do amigo de Bolsonaro.

O irmão mais novo, Mariano, conta em livro, em depoimento ao jornalista Santiago O’Donnell, como Mauricio lida com os negócios da família como se fosse o chefe de uma organização mafiosa.

Macri misturou os negócios dele com os do Boca Juniors, que ele presidiu, e depois aos cofres públicos, no governo de Buenos Aires e na Casa Rosada.

Macri tentou impedir na Justiça a publicação do livro, “Hermano: A confissão de Mariano Macri sobre a trama de poder, política, negócios e família por trás do seu irmão Mauricio”, mas não conseguiu.

A denúncia mais forte é a que aponta Mauricio Macri, o guru fracassado do neoliberalismo latino-americano e dos jornalistas da Globo, como um obsessivo por dinheiro que logrou até o pai.

Abaixo, o resumo de um texto que Santiago O’Donnell publicou sobre o livro no jornal Página 12:

O livro conta, a partir de um relato autobiográfico de Mariano Macri, como se criou um abismo entre ele e Mauricio devido a profundas diferenças de visões, princípios e posições éticas.

Depois de décadas competindo com Mauricio pela herança e legado de seu pai, Mariano, quinto filho de Franco, fala pela primeira vez e revela a face submersa do irmão mais velho, com um nível de precisão e detalhe que nem mesmo os piores inimigos do ex-presidente chegaram a imaginar.

Entre outras histórias nunca contadas, Mariano fala sobre o empréstimo milionário de um banco brasileiro que hackeava o grupo Macri, e o plano fracassado para evitar o pagamento por meio uma simulação de venda da empresa-mãe do grupo, a Sideco, a um banco austríaco que, por sua vez, esconderia o dinheiro em fundações criadas para o efeito no paraíso fiscal em Luxemburgo.

Mariano conta que seu irmão mais velho teria acumulado uma fortuna fazendo negócios com as empresas de seu pai, a presidência do Boca Juniors, a chefia do governo de Buenos Aires e a presidência do país. Fornece detalhes exclusivos e até então desconhecidos da parceria com a OCA (os Correios) e o sindicato dos caminhoneiros, liderado por Hugo Moyano, para a exploração dos Correios Argentinos após sua desapropriação pelo governo de Néstor Kirchner, por meio de uma triangulação negociada com o ex-secretário de Guillermo Moreno Commerce.

Além disso, Mariano explica como os fundos originados nessa manobra acabam em contas no Exterior em nome dele e de seu outro irmão, Gianfranco, que ele descreve como o principal testa de ferro de Mauricio, junto com Nicky Caputo e o falecido Jorge Blanco.

Mariano conta também porque está convencido de que Macri fraudou seu pai e o grupo com a venda inflacionada de ações da Sevel, a venda do projeto Lincoln West para Donald Trump e um investimento não autorizado no Banco Extrader .

O depoimento de Mariano Macri é muito mais do que uma reclamação. É a história íntima de uma empresa familiar, ou de uma família que funciona como uma empresa. É o retrato de um homem obcecado por dinheiro e poder, que continuou administrando os destinos de um grupo empresarial sentado na poltrona de presidente da República, em total contradição com sua promessa de colocar seus ativos em um fundo cego e esquecê-lo enquanto ele estava no cargo.

Um presidente que não hesitou em envolver os próprios filhos em suas atividades dentro do grupo, expondo-os às ações dos tribunais, legando-lhes suas ações e ordenando-lhes que votassem a favor da venda simulada ao banco austríaco.

O irmão mais novo de Mauricio Macri detalha duas das histórias menos conhecidas do grupo: o desembarque primeiro no Brasil e depois na China. Em ambos os casos, Mariano teve protagonismo enquanto Mauricio, sob a proteção da política, movimentava suas peças para desativar e esvaziar o poder do seu pai, que ele havia transformado em seu inimigo íntimo.

Para explicar a dinâmica familiar que vem desde a infância, Mariano revela detalhes desconhecidos sobre seus pais, Franco e Alicia; seus irmãos Mauricio, Gianfranco, Sandra, Alejandra e Florencia; seu tio Jorge e seus sobrinhos Agustina, Jimena, Caíco e Antonia, filhos do ex-presidente.

Mariano diz que quebra o silêncio por três motivos. Primeiro, por sua saúde mental. Há 13 anos luta com Mauricio exigindo que lhe pague um preço justo por sua cota de ações e o deixe seguir sua vida pessoal e empresarial com independência. Em sua história, ele descreve como durante todos esses anos o mais velho o sujeitou a todos os tipos de humilhações, truques e falsas promessas.

Diz que precisa se livrar do fardo acompanhando suas ações na justiça com um testemunho para que seus filhos, sobrinhos e descendentes conheçam a verdade, ou pelo menos conheçam o outro lado da falsa história de Maurício.

Em segundo lugar, para quebrar o mito de que seu pai, o lendário empresário Franco Macri, era um gangster que teria ficado rico com negócios com o governo. Mariano está convicto de que se trata de uma história inventada por Mauricio e por quem o assessora em marketing político.

Mariano fica magoado e indignado que Mauricio ataque o próprio pai, que ele considera um grande homem, alguém que arriscou a vida pelo desenvolvimento da Argentina e da América Latina, gerando emprego e crescimento com transparência e visão estratégica e correndo grandes riscos.

Um homem que Mariano descreve como duro, austero, de fazer em vez de ser. Já Mauricio, para o irmão mais novo, é o oposto do pai: um ser opaco, egoísta, ganancioso e falso.

Terceiro motivo: Mariano sente que os mesmos abusos e maus-tratos que recebeu de Mauricio no âmbito familiar, o povo argentino sofreu no âmbito político. A mesma decepção, o mesmo golpe. Para Mariano, Mauricio é um ídolo com pés de barro. E ele, que o conhece melhor do que ninguém, sente a obrigação ética, o dever social e o imperativo moral de desmascará-lo.