Pão de Açúcar vai falir? Entenda a crise da rede de supermercados

Atualizado em 10 de março de 2026 às 17:42
Faixada do Pão de Açúcar. Foto: Divulgação

O Grupo Pão de Açúcar (GPA) comunicou nesta terça-feira (10) que firmou um acordo com seus principais credores e adotou um plano de recuperação extrajudicial, com o objetivo de melhorar sua situação financeira. A medida visa renegociar parte das dívidas da companhia, totalizando R$ 4,5 bilhões, sem recorrer à recuperação judicial, um processo mais demorado e complexo que envolve todos os credores.

Com isso, o grupo tenta reorganizar suas finanças e evitar problemas mais graves, como o risco de falência. A recuperação extrajudicial tem efeito imediato e um prazo inicial de 90 dias. Durante esse período, o GPA negocia novas condições de pagamento com seus credores, sem que haja interrupção nas operações da empresa.

No entanto, é importante destacar que dívidas com fornecedores, parceiros, clientes e obrigações trabalhistas não estão incluídas neste acordo. O GPA controla as marcas Pão de Açúcar, Minuto Pão de Açúcar, Pão de Açúcar Fresh, Extra, Mini Extra, além de marcas próprias como Qualitá, Taeq, Pra Valer e Club des Sommeliers.

No comunicado, a empresa informou que já tem o apoio de credores responsáveis por 46% do valor das dívidas renegociadas, ou cerca de R$ 2,1 bilhões, superando o mínimo exigido pela legislação para dar início à negociação.

O GPA tem enfrentado uma grave crise financeira desde 2022, com prejuízos consecutivos. Diversos fatores têm pressionado os resultados da empresa, como a queda no consumo, especialmente em períodos de alta inflação, juros elevados, custos com mudanças na gestão e a necessidade de pagamento de dívidas fiscais e trabalhistas.

Além disso, a perda de lojas com baixo desempenho agravou ainda mais a situação. No balanço trimestral, a empresa acendeu um alerta ao informar que havia dúvidas sobre sua capacidade de manter as operações no longo prazo.

Em 2025, o GPA apresentou um déficit de aproximadamente R$ 1,2 bilhão, com dívidas que vencem até 2026, embora tenha tentado melhorar seus resultados. Mesmo com essas melhorias, o grupo continuou a registrar prejuízos.

“Estas condições indicam a existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia”, afirmou o GPA no comunicado divulgado no final de fevereiro. Para contornar esses desafios, a empresa adotou medidas para reduzir riscos, diminuir despesas e gastos com juros, além de tentar converter créditos tributários em dinheiro para reforçar seu caixa.

Prédio da GPA (Grupo Pão de Açúcar). Foto: Divulgação

O Grupo Pão de Açúcar passou por significativas mudanças em sua estrutura de gestão. O Grupo Coelho Diniz assumiu a posição de principal acionista, com 24,6% das ações, enquanto o grupo francês Casino, ex-controlador da companhia, ainda detém 22,5% das ações.

Em outubro de 2025, André Coelho Diniz foi eleito presidente do conselho de administração do GPA. Pouco depois, Marcelo Pimentel, que ocupava a presidência executiva desde 2022, renunciou, e Alexandre de Jesus Santoro assumiu o cargo de diretor-presidente da companhia em janeiro de 2026.

No ano de 2025, o GPA registrou um prejuízo líquido de cerca de R$ 651 milhões nas operações continuadas. A dívida líquida da empresa, ao final do ano, totalizou R$ 2 bilhões, enquanto a dívida bruta chegou a R$ 4 bilhões.

Apesar disso, as ações do GPA, negociadas sob o código PCAR3, acumularam uma alta de 9,64% nos últimos 12 meses, o que mostra alguma recuperação no valor de mercado da companhia.

A advogada Patricia Maia, do Barbosa Maia Advogados, explicou que muitos negócios têm buscado reorganizar suas dívidas devido à necessidade de reduzir os impactos financeiros e preservar suas operações. “Nos últimos anos, muitas companhias passaram a conviver com dívidas mais caras, redução do consumo em alguns setores e necessidade de reorganizar suas operações. A recuperação extrajudicial surge como uma alternativa para isso sem interromper a operação”, disse ela.

Processos como o do GPA têm a vantagem de permitir que as empresas negociações com os credores antes que o fluxo de caixa seja comprometido. “Quando feito antes de uma ruptura operacional, tende a preservar valor e evitar efeitos mais severos para o mercado”, completou a advogada.

No entanto, ela alerta que a reestruturação de uma empresa pode afetar o consumidor, influenciando a disponibilidade de produtos, políticas de preços e o ritmo de expansão da companhia. “Dependendo da intensidade da crise, isso pode influenciar a disponibilidade de produtos, políticas de preço ou ritmo de expansão da própria companhia”, afirmou.

De acordo com o GPA, a recuperação extrajudicial foi estruturada para garantir que a operação da empresa continue funcionando normalmente, enquanto as negociações com os credores seguem em andamento. O grupo afirmou que está em dia com os pagamentos aos fornecedores e parceiros comerciais, além de garantir que suas lojas permaneçam abertas e operacionais durante o processo de reestruturação.

Guilherme Arandas
Guilherme Arandas, 28 anos, atua como redator no DCM desde 2023. É bacharel em Jornalismo e está cursando pós-graduação em Jornalismo Contemporâneo e Digital. Grande entusiasta de cultura pop, tem uma gata chamada Lilly e frequentemente está estressado pelo Corinthians.