Paola Carosella e por que a cultura do cancelamento é uma esquizofrenia. Por Nathalí

Paola Carosella. Foto: Reprodução/YouTube

A mais recente “cancelada” na internet é Paola Carosella – empresária, chefe de cozinha, jurada do Master Chef e rainha da sensatez. O motivo? Ela resolveu dizer publicamente que comida processada faz mal e está relacionada à obesidade.

Ao criticar os nuggets do KFC, impressos numa impressora 3d, ela escreveu: “Olha que linda a sua comida do futuro! Parabéns aos envolvidos.”

Foi o quanto bastou: os veganos não gostaram de ler a crítica de Paola a uma “carne” sem sofrimento animal e os lacradores dispararam acusações de gordofobia contra a Chef.

Sim, execrada por dizer o óbvio, e isso não poderia ser mais a cara dessa geração do cancelamento, que vive enchendo o saco dos outros nas redes sociais como se existisse um manual moral de comportamento online – e, pior, um manual tão utópico que chega a ser impossível de seguir.

Uma vírgula fora do lugar e pronto: cancelada. Assim como você faz com um pedido no Ifood que vai demorar mais do que você gostaria de esperar, ou com uma compra online mal-sucedida.

E isso nos apresenta um fato que já deveria estar sendo debatido há algum tempo: a cultura do cancelamento, no frigir dos ovos, é uma das esquizofrenias do século.

Não existe um manual moral aplicável a todos, não existe (ou não deveria existir) um almanaque de opiniões e posicionamentos que devem ser adotados por qualquer um que deseje ser aceito.

Isso é delírio narcísico. É projetar no outro a retidão moral que você gostaria de assumir, mas é incapaz – porque, bingo! – ela é inalcançável.

Lembro do icônico vídeo de Rita Lee: “Ela é tão boazinha, ela é tão galera! Ah vai te f… Chata páca!”

É isso, estamos nos tornando chatos páca. Aliás, estamos, uma vírgula. Eu me recuso a gastar tempo “cancelando” quem quer que seja na internet, mesmo porque não me lembro de ser assinante das escolhas dos outros.

Fora que, frequentemente, a tal “cultura do cancelamento” perde completamente a noção. Linchar virtualmente alguém que defende alimentação saudável e comida de verdade?

Faça-me uma garapa.

Uma mulher de cozinha que era, até então, queridíssima pelos internautas, sendo criticada e chamada de gordofóbica por defender o combate à obesidade é o cúmulo da lacração irrefletida.

O problema apresentado por Paola não é estético: a obesidade, enquanto doença, é uma questão de saúde pública, e qualquer profissional que trabalhe diretamente com alimentação – aliás, vamos combinar? qualquer pessoa, mesmo – deve tratá-la com a gravidade à qual faz jus.

Embora os principais portais de mídia tenham noticiado que Paola foi “cancelada após se envolver em polêmica sobre comida saudável”, tenho alguma dificuldade para identificar a polêmica.

Comida “produzida” por uma impressora não só não é saudável como não é nem comida. Isso não é polêmico, é um fato – um fato que a nossa geração fast food só poderia mesmo relutar em aceitar.

Uma dia desses, num grupo de receitas trashs no Facebook, uma moça postou um prato cheio de comida ultraprocessada e enfeitado por uma porção de legumes enlatados em conserva com a legenda: “Me sentindo muito saudável porque estou comendo legumes.”

Ok, você até pode ter a pachorra de se sentir saudável comendo legume enlatado, futuro burger e veneno produzido por impressoras, mas querer convencer os outros na marra já é demais.

Falta amor no mundo, mas falta, sobretudo, um pouquinho de noção.

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