Papa diz que missão cristã é combater “ocupação imperialista do mundo” e abuso de poder

Atualizado em 2 de abril de 2026 às 15:18
Papa Leão XIV. Foto: Reprodução

Durante a Missa do Crisma celebrada na Quinta-feira Santa, o Papa Leão XIV afirmou que a missão cristã deve ser atuar como um contraponto àquilo que chamou de “ocupação imperialista do mundo”, advertindo que o abuso de poder jamais produz frutos positivos — seja no campo pastoral, social ou político.

Na celebração realizada na Basílica de São Pedro, o pontífice destacou que a missão confiada por Deus não pode ser distorcida por ambições de dominação, algo que classificou como completamente estranho ao ensinamento de Jesus Cristo.

Segundo ele, a cruz faz parte inseparável dessa missão: ao mesmo tempo em que torna o caminho mais difícil e desafiador, também o transforma e liberta. Nesse sentido, afirmou que a lógica de violência — frequentemente dominante — é desmascarada a partir de dentro quando confrontada pelo verdadeiro espírito cristão.

A fala ocorre em meio à guerra de EUA e Israel contra o Irã e ao genocídio em Gaza. Em 29 de março, a polícia de Israel impediu o Patriarca Latino de Jerusalém, Cardeal Pierbattista Pizzaballa, de entrar na Igreja do Santo Sepulcro para celebrar a missa de Domingo de Ramos, em um evento sem precedentes relatado como “grave e irracional”.

A Missa do Crisma, uma das principais celebrações da Quinta-feira Santa, inclui a bênção dos óleos sagrados usados ao longo do ano em sacramentos como batismo, crisma, unção dos enfermos e ordenação sacerdotal. Durante a cerimônia, padres também renovam seus compromissos.

Celebrando o rito pela primeira vez como bispo de Roma, Leão XIV dirigiu-se a cerca de mil sacerdotes e reforçou que a missão cristã não é individualista nem desconectada da Igreja. Cada fiel participa segundo sua vocação, disse, mas sempre em comunhão.

Ele reforçou ainda que a Igreja é, por natureza, missionária e dinâmica, e não uma instituição estática. Bispos e padres, afirmou, devem servir a esse povo em movimento, evitando que a missão seja deformada por lógicas mundanas.

Em um dos trechos mais contundentes, Leão XIV criticou a associação entre fé e demonstrações de poder. Para ele, o amor cristão autêntico não se expressa por força, ostentação ou estratégias calculadas, mas pela simplicidade, pelo serviço e pelo respeito às fragilidades humanas.

O pontífice também fez um alerta direto sobre a relação com os pobres: não há “boa nova” quando se chega até eles ostentando sinais de poder, nem verdadeira libertação sem desapego. Em vez disso, exaltou o exemplo de missionários que atuam de forma discreta, compartilhando a vida, servindo sem interesses e dialogando com respeito.

Leão XIV ressaltou que a missão exige humildade diante das diferentes culturas e povos. “Como cristãos, somos hóspedes”, afirmou, defendendo que a Igreja deve priorizar escuta, acompanhamento e testemunho — e não ideias de conquista, mesmo em contextos de secularização.

Ele também abordou a possibilidade de rejeição, lembrando a expulsão de Jesus de Nazaré. Ainda assim, disse que essas experiências podem revelar a força mais profunda do Evangelho, especialmente quando vividas com entrega e serviço.

Durante a homilia, o papa citou Óscar Romero como exemplo de esperança perseverante em meio à violência. Romero foi um sacerdote católico salvadorenho, quarto arcebispo metropolitano de San Salvador, capital de El Salvador. Foi assassinado em 1980, em consequência dos conflitos da Guerra Civil de El Salvador, e reconhecido como mártir e santo pela Igreja Católica.

Ao final, Leão XIV convocou os fiéis a renovar o compromisso com uma missão marcada pela unidade e pela paz. Em tom enfático, afirmou que, em um momento sombrio da história, os cristãos são chamados a levar vida onde prevalece a morte — superando o medo e o sentimento de impotência.

Na véspera, ele se dirigiu diretamente ao presidente dos EUA quando deixava o retiro papal em Castel Gandolfo, nos arredores de Roma.

“Fui informado de que o presidente Donald Trump declarou recentemente que gostaria de encerrar a guerra. Espero que ele esteja buscando uma saída”, disse o pontífice.

“Espero que ele esteja procurando uma maneira de diminuir o nível de violência, dos bombardeios, o que seria uma contribuição significativa para reduzir o ódio que está sendo criado e que cresce constantemente no Oriente Médio e em outras regiões”, afirmou.

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