Para deputados da oposição, alcance da CPMI das fake news dependerá do Centrão

Para deputada Lídice da Mata, relatora do colegiado, Centrão tem sido fiel da balança no Congresso GERALDO MAGELA/AGÊNCIA SENADO

PUBLICADO NO REDE BRASIL ATUAL

POR EDUARDO MARETTI

Instalada no Congresso no dia 4 de setembro, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News é composta por 15 senadores e 15 deputados e terá 180 dias para investigar a atuação de perfis falsos que disseminaram ataques massivos durante o processo eleitoral de 2018. O requerimento para a criação da CPI é do deputado Alexandre Leite (DEM-SP) e recebeu o apoio de 276 deputados e 48 senadores. A comissão não se restringirá a apurar fatos relacionados à eleição ou à desestabilização da democracia, mas também cyberbullying e o aliciamento de crianças para crimes de ódio e suicídio. Um dos primeiros a ser chamado a depor deverá ser o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro.

Para os deputados federais Carlos Zarattini (PT-SP), líder da minoria no Congresso, e Lídice da Mata (PSB-BA), relatora da CMPI, o Centrão será o fiel da balança no colegiado. Os trabalhos da comissão já começaram com tentativas sistemáticas dos aliados do presidente, especialmente seu partido, o PSL, de obstruir as sessões. “Em princípio temos maioria (para derrubar as tentativas da situação), mas dependemos muito dos votos do Centrão”, diz Zarrattini. O senador Ângelo Coronel (PSD-BA) é o presidente da comissão.

Na opinião da deputada da Bahia, o papel do bloco não é uma novidade. “O Centrão tem sido fiel da balança no Congresso. Imagino que possa continuar sendo. Mas espero que o compromisso com a democracia esteja à frente de todos os que participam, independentemente de ser Centrão, direita, esquerda, centrinho”, afirma Lídice. “Isso é o que imagino que o país espera.”

Sendo as fake news, hoje, um fato mundial e objeto de investigação em vários países sobre as consequências do fenômeno sobre suas democracias, “cabe ao Brasil investigar isso de maneira séria”, acrescenta a deputada.

De acordo com Zarattini, será investigado, primeiro, todo o processo de propagação das notícias falsas. Em seguida, de onde se originam, para constatar seu uso político nas eleições, quais são as fontes e o caminho de propagação e quem financiou. “Tem muita coisa para achar. Se a gente desvendar a fonte, a propagação e quem paga as fake news, as consequências políticas disso podem ser grandes. Muita coisa vai surgir.”

O parlamentar lembra que notícias falsas foram inclusive usadas como armas de alas ligadas ao governo Bolsonaro em guerras entre si. Os ex-ministros Gustavo Bebianno e o general Carlos Alberto dos Santos Cruz foram vítimas de ataques do tipo.

Para Lídice da Mata, o alcance e as consequências da CPMI dependem da condução e da disposição dos parlamentares. “Se a disposição que vi na reunião for obstruir a CPMI, ela vai caminhar menos. Mas ela deve conseguir identificar quem promoveu esses ataques e quais empresas permitiram isso.”

A relatora minimiza a posição do autor do requerimento para a criação da CPMI. Alegando não se sentir confortável com “a costura política que foi feita em torno dos nomes”, Alexandre Leite decidiu se retirar do colegiado. Ele se posicionou contra a relatoria ficar com Lídice da Mata, pois os partidos de oposição ao governo, segundo o deputado, podem utilizar a comissão para fins políticos e até mesmo tentar reverter o resultado das eleições de 2018.

“Mas tudo aqui é disputa política. Estamos numa casa política”, diz Lídice. “E esta CPMI é acima de tudo política.” A relatora destaca que, na própria proposta, o autor do requerimento afirmou o que deveria se investigar. “O que deveria ser investigado, segundo ele próprio? Ameaças à democracia pelas fake news, as notícias falsas nas eleições de 2018, cyberbullying e o aliciamento de crianças para crimes de ódio e suicídio.” O DEM ainda não indicou substituto de Alexandre Leite.

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