Para o Estadão, as meninas iranianas bombardeadas por EUA e Israel mereceram morrer

Atualizado em 1 de março de 2026 às 11:36

Existem jornais racistas e servis aos EUA e existe o Estadão.

Num editorial antológico pelos motivos errados — mais um, você dirá, com razão — o jornal vitupera que “o Irã é um Estado pária, que massacra seu povo, quer a bomba para destruir Israel e financia o terror contra o Ocidente. Se o ataque derrubar esse regime criminoso, o mundo agradecerá”.

O resto do texto repete essa retórica bizarra, que está sendo contestada até dentro do movimento MAGA, principalmente a cascata da “bomba atômica iraniana”. Tudo sob medida para o fascista médio que lê esse lixo.

Segue:

Ao anunciar sua operação militar contra o Irã, EUA e Israel declararam como objetivo neutralizar ameaças iminentes, enfraquecer a infraestrutura militar do regime e impedir que Teerã obtenha uma arma nuclear. “A hora de sua liberdade está ao seu alcance”, disse Donald Trump, dirigindo-se ao “honrado povo iraniano”. “Quando terminarmos, assumam o seu governo. Só depende de vocês tomá-lo.”

Há quatro décadas a República Islâmica acumula um histórico de repressão interna, apoio a milícias terroristas e hostilidade aberta contra os EUA, Israel e países árabes, razão pela qual ninguém, no mundo civilizado, vai chorar pelo Irã.

Ah, o mundo civilizado… Nenhum analista sério acredita nisso. Nem Donald Trump, que merece citação literal de uma barbaridade demagógica. O destino do Irã está mais próximo da Líbia pós-Gaddafi e do Iraque pós-Saddam Hussein. Ou da Síria. Ou seja, o caos. Mas na forma de uma colônia dos Estados Unidos controlada por Israel.

Dito isso, não há certeza de que a guerra produzirá o resultado desejado. O fato de o regime iraniano ser autoritário e desestabilizador não o torna automaticamente frágil. Tampouco garante que bombardeios aéreos, por si sós, precipitem mudança política.

Ué. Ou uma coisa ou outra. Então não vai dar certo, portanto, apenas com bombardeios aéreos. Precisaremos dos marines do Estadão arrebentando os mouros nessa nova cruzada. O editorialista se embrenha por um amontoado de especulações idiotas e irresponsáveis para terminar assim:

O realismo estratégico impõe reconhecer que a força pode abrir caminhos, mas não elimina a complexidade do terreno que se atravessa. A clareza moral impõe reconhecer que o Irã é um Estado pária e não pode ter uma bomba nuclear em hipótese alguma. Israel tem pleno direito de se defender de uma ameaça existencial inequívoca. “Chegou a hora de todas as partes do povo iraniano livrarem-se do jugo da tirania e promoverem um Irã livre e comprometido com a paz”, disse o premiê israelense, Benjamin Netanyahu. Sejam lá quais as motivações por trás da guerra, se esse for o seu resultado, será bom para o mundo inteiro.

Vou repetir: “Sejam lá quais as motivações por trás da guerra, se esse for o seu resultado, será bom para o mundo inteiro”.

Às favas os escrúpulos. O que temos até agora, de saldo humano concreto, de sangue de inocentes, de tragédia, são pelo menos 150 mortos e 48 feridos numa escola para meninas na cidade de Minab, no sul do Irã. A semana letiva começa no sábado, veja que azar!

O bombardeio das forças americanas e israelenses explodiu crianças que, segundo o Estadão, mereceram esse destino como vítimas sacrificiais no altar do Ocidente. Absolutamente nada a ver com o petróleo.

O Brasil, sempre se disse, foi abençoado por estar geograficamente distante de regiões conflagradas. Nós nos matamos sozinhos. Com o avanço da tecnologia armamentista, porém, um míssil MIM-104 Patriot já tem capacidade de atingir um prédio na Avenida Engenheiro Caetano Álvares, 55 – Limão, São Paulo – SP, CEP 02710-000.

Em nome do mundo civilizado. Alá é grande.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.