Falconi vai enfrentar o fantasma de Olavo de Carvalho na Abril

 

Falconi
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Uma das piores coisas que podem acontecer a alguém, na carreira, é estar numa empresa cujos produtos se tornaram obsoletos.

Você olha para o futuro e não vê nada.

A imagem que costumo usar nestas situações é o pessoal que trabalhava com carruagens quando surgiu o carro.

É esta a situação dos jornalistas e executivos da Abril. (Entrei na Abril em 1980, era de ouro das revistas: na Veja era frequente recusar anúncios por não haver mais espaço. Na Exame, que dirigi nos anos 1990, várias vezes escrevi editoriais para justificar o número extraordinário de páginas publicitárias, que davam à revista o ar de um anuário.)

Revistas hoje são um produto em acentuado processo de obsolescência. Eram um sinal de sofisticação intelectual lê-las. Você parecia mais cerebral que os demais. Hoje, é um fator de atraso. Um leitor de revista parece fora da realidade. Num bar, num restaurante, pessoas em sintonia com seu tempo lêem em tablets ou celulares.

Neste quadro, as notícias para quem está na Abril não são nunca boas. A qualquer momento sua revista pode acabar, ou seu cargo ser extinto.

Grandes notícias como as dos dias dourados somem. Nunca mais um lançamento de revista nova, por exemplo. Nunca mais aumentos fáceis, ou bônus fartos.

Mesmo jornalistas de prestígio na casa se sentem fragilizados. Pode ser que seus salários já não se ajustem às novas receitas. Determinada revista pode simplesmente não comportar mais diretor de redação.

É nessas circunstâncias que aporta na Abril o consultor Vicente Falconi, de grande prestígio na comunidade de negócios – a Exame o chamou de “guru do Brasil”. A fama de Falconi deriva de sua capacidade em cortar custos, vale dizer, demitir pessoas e eliminar cargos.

Não é o tipo de contratação que anime os funcionários, naturalmente.

Na outra ocasião em que um consultor foi contratado para uma missão parecida na Abril, há cerca de 15 anos, centenas de cargos sumiram. Eu estava lá. O Falconi de então era Maurizio Mauro, da Booz Allen.

Maurizio logo viraria presidente executivo da Abril, cargo do qual sairia depois de se indispor com Roberto Civita numa disputa por espaço e por poder. Maurizio jamais digeriu bem o fato de, mesmo com todo o poder executivo, jamais ter voz nenhuma nas questões editoriais da Abril.)

Conheço bem a Abril para saber o básico que Falconi poderia fazer.

O mais simples é sair do caríssimo prédio alugado na Marginal do Pinheiros e voltar ao modesto prédio da Marginal do Tietê.

O aluguel deve girar em torno de 2 milhões de reais por mês, hoje. É uma cifra que não faz sentido quando você fatura cada vez menos, como é o caso.

Com Roberto Civita vivo, isso seria impensável. Mas seus filhos, Gianca e Titi, são menos apegados a demonstrações de poder e riqueza.

Apressar o fechamento de revistas marcadas para morrer – Playboy, National Geographic – é outro passo óbvio, embora mais doído.

Quantas revistas terão algum futuro na Abril nesta era digital? Poucas. Veja, Exame, Claudia, 4 Rodas. Talvez Superinteressante.

Mesmo as publicações que sobrevivam serão muito diferentes: menos páginas, orçamentos menores, equipes magras.

A tarefa mais complicada de Falconi provavelmente resida na Abril Educação, tida como o ramo do negócio dos Civitas capaz de crescer nos próximos anos.

A imagem da Veja é um problema real para este negócio.

A Veja, hoje, está claramente alinhada com o pensamento de direita radical de Olavo de Carvalho. Basta ver os discípulos de Carvalho presentes na revista, de Lobão a Felipe Moura Brasil, de Reinaldo Azevedo a Rodrigo Constantino.

Este direitismo radical tem grandes chances de contaminar a linha pedagógica das escolas da Abril.

Quantos pais querem que seus filhos se tornem olavetes? Que professores, na primeira linha do magistério, estão dispostos a trabalhar numa empresa mentalmente comandada por um arquiconservador como Carvalho?

Falconi não gostaria provavelmente de enfrentar este problema, mas não há como fugir dele.

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