Para Rodrigo Constantino, a revolta do brasileiro pode ser resolvida com o vibrador de Carluxo. Por Nathalí

Rodrigo Constantino e seu grande amigo. Foto: Reprodução

Enquanto a maioria dos globais seguem usando suas redes pra compartilhar dancinhas de Tik Tok e procedimentos estéticos de gosto duvidoso, a atriz Maria Flor vem investindo em um conteúdo humorístico de teor político que é – muito mais do que bem-vindo – necessário no Brasil de Bolsonaro.

Em “Flor Pistola”, uma série de vídeos no IGTV, a atriz pauta, com o bom e velho exagero cômico, assuntos urgentes do nosso microcosmo político.

Os vídeos vêm fazendo sucesso nas redes porque representam, e não haveria como ser de outro modo, o espírito animal do brasileiro não-bolsonarista: estamos full pistola.

O último vídeo da série – que foi ao ar ontem e rendeu à atriz uma posição entre os assuntos mais comentados no Twitter – fala sobre o Impeachment, e questiona, com aquele ódio que todo brasileiro sente entalado na garganta: o que falta para a criação de um cenário favorável à queda de Bolsonaro?

A sacada do Flor, Pistola é cirúrgica: não há outro estado de espírito possível num país em que bebês morrem sufocados enquanto o presidente dá um mergulho. Não há nem mesmo pra Maria Flor, que faz Yoga todo dia nos stories e tem fofura até no nome.

Talvez seja essa, aliás, a graça principal do personagem muitíssimo verossímil – talvez uma persona – que a atriz compõe em suas redes: até a criatura mais goodvibes do planeta terra está p*ta pra c*cete. Desconfio mesmo que a própria Monja Coen esteja precisando recorrer à terapia.

É claro que essa sacada – e o quando criações como esta são fundamentais pra este momento – não será compreendida e apreciada por todos.

Rodrigo Constantino, por exemplo, sugeriu que a atriz precisa de um vibrador pra se acalmar. “A moça precisa de umas dicas da Angelica”, disse a alma sebosa, insinuando que a grande causadora da revolta da atriz é falta de sexo.

Quem dera todos os problemas do mundo pudessem ser resolvidos com uma bela rola veiuda, mas infelizmente não é assim que funciona, ou ao menos não pra todo mundo.

Se você consegue ficar tranquilo sendo brasileiro – e sobretudo tendo sido demitido de cinco empregos no último ano – usando só um pedaço de borracha em formato fálico, ensina pra gente, porque por aqui a revolta tem raízes um pouco mais profundas.

Toda a história de que “mulheres não são histéricas porque precisam de sexo ou porque estão de TPM” é válida pra responder a esse tipo de absurdo, mas é óbvia demais e nós temos coisa melhor a dizer: talvez a revolta explicitada nesses vídeos e incompreendidas por acéfalos como Constantino seja tudo do que precisamos.

“Não tem mais o que fazer, a revolta ela tá em mim” é a frase que resume o vídeo de Maria Flor e o que falta na nossa juventude e nos nossos movimentos sociais: revolta, inconformismo, verdadeira rebeldia – a principal lição da arte, que vem sendo desonrada e apagada por dancinhas no Tik Tok e artistas sem propósito,  ano após ano, a arte nos tempos da reprodutividade técnica e coisa e tal.

Eis a verdadeira resistência, que não se conforma com notas de repúdio e petições online: uma revolta que fica na gente até que a gente faça alguma coisa – mesmo que só um vídeo no IGTV.

Aliás, Rodrigo Constantino falando bosta não é novidade.

Whatever.

Viva e deixe morrer.

A novidade é gente como Maria Flor fazendo acontecer usando as armas que têm com criatividade, talento e apelo cômico: se uma pandemia nos impede de ir às ruas, nossas redes são nosso palanque, nossa manifestação, nossa roda de conversa.

“Flor Pistola” viralizou porque todos nós estamos putos e não sabemos o que fazer com a nossa revolta, e talvez conteúdos como estes – ao invés de dancinhas irritantes e sem sentido – nos ajudem a enxergar que quando transformamos revolta em expressão, transformamos verdadeiramente as coisas – ou, no mínimo, ajudamos a expor ao ridículo (de novo, novamente, mais uma vez) gente desprezível como Rodrigo Constantino.

 

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