Paraisópolis: Tenente-coronel defende que peritos internacionais investiguem ação da polícia

Publicado originalmente na Rede Brasil Atual

Diante das evidências que constam em diversos vídeos e relatos de moradores afirmando que as nove mortes, em Paraisópolis, foram causadas pela ação deliberada da polícia, que teria espancado os frequentadores de um baile, entre outras possíveis distorções e abusos ocorridos na produção de laudos e reconhecimento dos corpos das vítimas do massacre, o tenente-coronel da reserva Polícia Militar de São Paulo Adilson Paes de Souza defende a nomeação de uma comissão de peritos internacionais para investigar o episódio.

O oficial da reserva estranha que oito das nove vítimas, que teriam morrido pisoteadas, sejam homens. Num tumulto como esse, era de se esperar que as mulheres fossem as principais vítimas. Segundo a versão oficial, dois jovens numa moto, que teriam trocado tiros com agentes da polícia no dia anterior, teriam furando um bloqueio policial e adentrado na área numa das ruas ocupadas pela multidão presente no baile. Os dois indivíduos e a moto não foram encontrados, nem há imagens que corroborem essa versão. A polícia apresentou apenas uma cápsula do projétil que teria sido disparado por eles.

“Onde está a moto? Se havia duas pessoas fugindo, o natural seria deixarem a moto e se misturarem a pé no meio do povo, para não serem reconhecidos. Na versão oficial, depois desse tumulto todo, acham um cartucho deflagrado de uma munição calibre .380. É muita coincidência, é estranho”, contesta Paes de Souza, em entrevista aos jornalistas Marilu Cabañas e Cosmo Silva, para o Jornal Brasil Atual, nesta terça-feira (3).

A suposta perseguição aos suspeitos em meio à multidão também fere os protocolos básicos de atuação da polícia em situações como essa, segundo o oficial. “O que os vídeos demonstram é outro cenário. Se levar em conta o que a policia e o governo falam e o que os vídeos mostram, são duas realidades em dois mundos diferentes.” Ele também destacou a morte de um policial ocorrida um mês antes, nos arredores de Paraisópolis, o que aponta que a ação de repressão pode ter sido motivada por vingança.

Reportagem do site Viomundo, que ouviu moradores de Paraisópolis na condição de anonimato, também contestam a versão de que os nove jovens teriam morrido pisoteados. “Foi desesperador ver o que esses meninos passaram. Os PMs bateram sem dó. Mataram na porrada e com spray de pimenta e bombas de gás. Não foram pisoteados.” Segundo essa moradora, a história da moto “é mentira, balela”. Outro morador alega também discorda da versão oficial apresentada. “Eles já vieram determinados a matar a meninada na maldade. Encurralaram e bateram com cassetete de madeira na nuca, nas costas. Foi um massacre.”

 Abuso

Outra fato que chamou a atenção do tenente-coronel – que também é mestre em direitos humanos pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e , autor do livro O Guardião da Cidade (selo Escrituras) – é o relato do tio de Luara Victoria de Oliveira, 18, que diz que foi impedido de ver o corpo da sobrinha. Apenas o rosto e os pés foram mostrados, segundo ele, durante a identificação. “Quando minha filha foi puxar esse tecido para ver o corpo da prima, a impediram, dizendo que o corpo não havia sido desinfetado”, disse Vagner dos Santos Oliveira, em reportagem do portal Uol.

Segundo o tenente-coronel, aqueles que impediram o pleno reconhecimento do corpo – não se sabe ao certo se foram agentes do Instituto Médico Legal (IML) ou policiais – deveriam ser presos por “abuso de autoridade”. “Precisamos que alguém nomeie uma comissão internacional de peritos para fazer a análise desses corpos. Daqui a pouco vão enterrar esses corpos do jeito que estão, e proibir a exumação. Além de uma questão de respeito às famílias, o reconhecimento do corpo é um ato processual. Quem proíbe está violando o devido processo legal. Isso é para evitar que haja prova que possa condenar o policial”, afirmou.

Afastamento

Os seis policiais que participaram da ação, em Paraisópolis, foram afastados das ruas, restritos a funções administrativas. Paes de Souza defende que os agentes deveriam ser presos preventivamente, até a conclusão do inquérito. “Não estou culpando de antemão. Mas é que as primeiras versões do que aconteceu (comparado) com a dinâmica dos fatos e com as imagens que apareceram, não batem. Quando as opiniões estão contraditórias, é para gerar suspeita. Se isso acontece com um cidadão comum na cena do crime, a pessoa é presa”, detalhou.

Clima de medo

Segundo o presidente da Associação União em Defesa da Moradia e Melhoria das Comunidades de São Paulo (AUDNC), José Maria Lacerda, também disse não acreditar na versão apresentada pela polícia. “O policial que me perdoe, mas não acredito na moto. Não acredito que essa moto entrou assim. Como é que em numa rua com cinco mil pessoas vem uma moto correndo, dando fuga? Não tem ninguém atropelado, não tem essa moto. Em quem vou acreditar?”, afirmou. Ele disse que o clima entre os moradores de Paraisópolis é de medo em relação à atuação da polícia.

“Nós, trabalhadores, não podemos aceitar isso com nossos filhos. Onde vamos parar? Vamos voltar à época da ditadura? Não podemos. Temos vários policiais bons na polícia. Meus filhos e meus netos quando saem às ruas não teriam que ter medo da polícia. Agora, se veem um policial na esquina, já saem correndo, porque estão com medo. Não podemos ter medo da polícia. Eu mesmo estou cismado”, relatou Lacerda.

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