Parente do Bolsonaro? Quem é a deputada que fez “blackface” na Alesp

Atualizado em 19 de março de 2026 às 10:55
Fabiana Bolsonaro durante o ato racista de se pintar em “blackface”. Foto: Alesp

A deputada estadual Fabiana Bolsonaro (PL) virou alvo de representação no Conselho de Ética da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) após realizar um discurso em plenário utilizando “blackface”. O racismo foi uma consequência do ataque transfóbico contra a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP). O caso mobilizou parlamentares e gerou críticas dentro e fora da Assembleia Legislativa de São Paulo, com pedidos que podem chegar à cassação do mandato.

Apesar do sobrenome, a parlamentar não tem parentesco com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Fabiana de Lima Barroso Souza adotou o nome político por estratégia eleitoral e alinhamento ideológico. Ela é filha do pastor Adilson Barroso, fundador do antigo Partido Patriota, atual PRD, e iniciou sua trajetória como vice-prefeita de Barrinha antes de se eleger deputada em 2022.

A representação contra a deputada foi assinada por 18 parlamentares de partidos como PT, PSOL, PCdoB e PSB. O documento sustenta que a conduta foi “previamente concebida e intencional” e configura prática discriminatória com conteúdo racista e transfóbico, ultrapassando os limites da imunidade parlamentar.

Segundo os autores, o uso de “blackface” representa uma “revitimização coletiva” por remeter a estereótipos históricos ligados à desumanização da população negra.

Durante o discurso, Fabiana se pintou de marrom enquanto questionava a identidade racial e de gênero. “Eu, sendo uma pessoa branca, vivendo tudo o que eu vivi como uma pessoa branca, agora aos 32 anos, decido me maquiar, me travestir como uma pessoa negra, me maquiando e deixando só o fora parecer. E aqui, eu pergunto: e agora? Eu virei negra?”, afirmou.

Em outro trecho, disse: “Eu, sou negra agora? Eu estou sentindo as dores de uma mãe e teu filho que sofre tudo que sofre na rua por ser negro? Não é isso? Não é essa luta?”.

A deputada também associou o argumento à discussão sobre pessoas trans. “Eu quero justamente mostrar que não adianta me maquiar. Não adianta eu fingir algo”, declarou, acrescentando: “Não adianta se travestir de mulher. Não estou ofendendo nenhum transexual. Eu estou dizendo que eu sou mulher”.

A atitude provocou reação imediata. A deputada Monica Seixas registrou boletim de ocorrência na Decradi por racismo. Internautas também criticaram a cena durante a transmissão da sessão, com comentários como “Racismo é crime” e “Blackface é crime”.

Especialistas apontam que a prática pode ser enquadrada na Lei nº 7.716/1989 e também como injúria racial. “É um atitude potencialmente ilícita, sobretudo porque atinge a honra subjetiva de comunidades, coletivos”, afirmou a advogada Dina Alves.

Em resposta, Fabiana afirmou que seu discurso foi distorcido. “Muitos estão distorcendo a minha fala e o sentido do meu protesto. Isso vai além de ‘lugar de fala’: trata-se de ser, de sentir, para poder representar”, disse.

A Alesp informou que o Conselho de Ética é o órgão responsável por analisar o caso. “A Constituição assegura que os parlamentares são invioláveis, civil e penalmente, por suas opiniões, palavras e votos”, afirmou a Casa, ressaltando que a apuração respeitará o contraditório e a ampla defesa.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.