Parlamento Europeu aprova resolução contra Bolsonaro por violência contra povos indígenas

Atualizado em 7 de julho de 2022 às 11:55
Bolsonaro e indígenas

O Parlamento Europeu aprovou hoje uma resolução sobre a posição da União Europeia quanto à violação dos direitos dos povos indigenas e ambientalistas no Brasil, na esteira do assassinato do jornalista Dom Philips, do ativista Bruno Pereira e de indígenas da etnia Guarani-Kaiowá. A resolução foi adotada por 362 votos a favor, 16 contra e 200 abstenções.

O documento lista as práticas e políticas violadoras das autoridades brasileiras a direitos dos povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais, e levanta questionamentos que podem impactar o Acordo De Associação Mercosul-União Europeia do ponto de vista ambiental e dos direitos humanos.

A resolução estabelece que a produção de bens colocados no mercado europeu não deve comportar a violação de direitos. Essa decisão inclui o Brasil em um grupo de países autoritários, párias internacionais, acusados de sérias violações aos direitos humanos.

A situação do Brasil se complica também porque vários membros importantes da UE (Bélgica, Países Baixos e Áustria) já vetaram em seus parlamentos nacionais a assinatura do Acordo UE-Mercosul até que o Brasil dê garantias críveis de proteção aos povos indígenas e preservação do meio-ambiente.

A Comissão Europeia planeja apresentar uma forma adicional de garantia de preservação do meio ambiente, que pode ser em forma de protocolo ao acordo, emenda ou instrumento similar. O acordo em si vem de um modelo obsoleto e desigual, numa lógica de fornecimento de commodities pelo Mercosul, em troca de produtos e serviços de alto valor agregado pela UE, o que piora o equilíbrio das trocas comerciais.

Ainda que as resoluções do parlamento europeu não tenham carater vinculante, elas sao uma declaracao politica sobre as diretrizes a serem seguidas, e estabelecem objetivos gerais da Uniao Europeia, uma especie de plano de governo.

Isso reforça a proposta de regulamento da UE em curso sobre a importação de produtos não associados ao desmatamento e que não interferem na proteção dos direitos dos povos indígenas e dos direitos humanos.

De acordo com o jurista Paulo Lugon Arantes, doutor em Direito Internacional pela Universidade de Leuven (Bélgica), “nas Nações Unidas, o Brasil apoiou a resolução sobre defensores de direitos indígenas e do meio ambiente, em 2019. Ano passado, os compromissos do Brasil durante a COP26 de diminuir o desmatamento não saíram do papel. A resolução de hoje coloca em cheque a consistência do discurso do Brasil nos foros internacionais.”

O documento também condena o assassinato de defensores do meio ambiente e dos direitos humanos, bem como dos povos indígenas no Brasil, e, mais recentemente, o assassinato de Dom Phillips e Bruno Pereira, além de exortar as autoridades brasileiras a realizarem uma investigação exaustiva, imparcial e independente sobre estas mortes e a garantirem o pleno respeito aos direitos processuais em todas as circunstâncias.

Do ponto de vista legislativo, a resolução vai na contramão do PL 191/2020, conhecido como “lei da destruição”, e do projeto de lei PL 490/2007 sobre a demarcação das terras indígenas, a PEC do Marco Temporal. Isso posto, o Brasil terá que provar que protege territórios indígenas para estreitar seus laços com a União Européia.

O posicionamento oficial da União Europeia dá um recado ao atual governo e a instituições brasileiras sobre as bases das relações comerciais com o Brasil. Elas estarão condicionadas à preservação do meio ambiente e proteção dos povos indigenas, e é sobre essa base que o país tem que se reintegrar no plano geopolítico.

Sara Vivacqua
Sara Vivacqua é advogada, graduada em Direito pela Ruprecht-Karls-Universität Heidelberg (Alemanha), e mestre (honours)em Jornalismo Investigativo pela Birkbeck, University of London, com menção máxima (distinction) na dissertação final sobre os povos Yanomami. Atuou como procuradora no Government Legal Department (GLD) junto ao Ministério do Meio Ambiente do Reino Unido, e é conhecida por sua atuação na campanha pela libertação de Julian Assange em Londres