Patrimônio declarado de Flávio Bolsonaro aumentou 6.723% em dezesseis anos. Por Joaquim de Carvalho

Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz

A revelação de que Flávio Bolsonaro comprou dois imóveis, no valor de R$ 4,2 milhões, entre 2014 e 2017, gera um novo problema para o primeiro-filho.

Em 2018, quando apresentou sua declaração de bens à justiça eleitoral, informou possuir um apartamento na Barra da Tijuca de R$ 917 mil, aplicações bancárias que totalizavam R$ 558 mil, sala comercial na Barra da Tijuca no valor de R$ 150 mil, carro da marca Volvo (66 mil), 50% de uma loja Kopenhagen. Total: 1,7 milhão.

Onde foi parar a diferença entre R$ 4,2 milhões e R$ 1,7 milhão?

A declaração de bens entregue à justiça eleitoral tem outro problema.

O valor informado do apartamento é inferior ao que está registrado na escritura, conforme reportagem da Folha de S. Paulo.

Flávio teria comprado o apartamento da Barra daTijuca nesse período pelo valor de R$ 2,55 milhões, R$ 1,64 milhão a mais do que o que foi declarado ao Tribunal Regional Eleitoral.

Segundo o jornal, mesmo o preço declarado em escritura é inferior ao que está registrado na Prefeitura do Rio de Janeiro para efeito de cobrança do IPTU.

O apartamento fica numa das áreas mais valorizadas na cidade, na avenida  Lúcio Costa, de frente para a praia.

No mesmo período em que fazia essas aquisições, o então assessor dele, Fabrício Queiroz, movimentava R$ 7 milhões em sua conta bancária, segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

De onde teria vindo os recursos que geraram o movimento de R$ 7 milhões em três anos?

Fabrício Queiroz, como o DCM mostrou, não tem sinais exteriores de riqueza. Pelo contrário. Mora em uma casa simples de uma comunidade e a família toda trabalha — durante muito tempo, em cargos políticos de confiança da família Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro entrou na política em 2002, quando se elegeu deputado estadual. Na época, declarou como patrimônio apenas um Gol 1.0 16 válvulas, no valor de R$ 25.500,00.

Oito anos depois, em 2010, ele já aparecia em intensa transação imobiliária.

Comprou sete salas comerciais em um condomínio da Barra, o Prime, e sete dias depois vendeu para a MCA, empresa que tem uma offshore do Panamá como uma de suas controladoras.

Essas negociações passam longe de suas declarações à justiça eleitoral, obrigatória quando se elege.

Ainda assim, a evolução patrimonial declarada por Flávio Bolsonaro em quatro mandatos consecutivos (16 anos) já é surpreendente.

Aumentou 6.723%, um absurdo principalmente se se levar em consideração o salário do deputado: R$ 25,3 mil brutos. 

Repita-se: evolução patrimonial por declarações dele próprio.

Atribuir essa evolução patrimonial e a montanha de dinheiro identificada nas contas de Flávio e Fabrício ao pedágio pago pelos funcionários de confiança de gabinete não fecha a conta.

Os valores tornados públicos são muito mais expressivos. Muito maior do que pixulecos de funcionários de gabinete poderiam proporcionar.

Talvez isso explique o desespero de Flávio Bolsonaro.

Ele não quer esclarecer nada, porque não tem como.

Se quisesse, já teria se apresentado ao Ministério Público.

Ao contrário, ele conseguiu suspender a investigação através de uma medida liminar no Supremo Tribunal Federal.

Vai bater na tecla de que está sendo perseguido, contando com os amigos na imprensa, como a Record e a RedeTV.

Quer levar o caso para a esfera federal, onde a influência da presidência é maior.

Nesse momento, segundo informações de bastidores, há uma disputa política no âmbito da Procuradoria Geral da República.

Raquel Dodge quer permanecer no cargo de procuradora geral, que Bolsonaro gostaria de entregar a partir de setembro a Deltan Dallagnol — o que completaria a ascensão dos líderes da “República de Curitiba” ao poder central.

Tanto Raquel Dodge quanto Dallagnol estão muito discretos em relação ao escândalo Flávio Bolsonaro.

O primeiro-filho sabe que o primeiro dos dois que tomar qualquer iniciativa contra ele, ainda que na forma de declaração, perderá a chance de comandar a PGR.

A república brasileira, nas mãos de Bolsonaro, já emite o mau cheiro da podridão.

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