Paulo Henrique Amorim perdia o amigo, mas não a notícia: vai fazer falta. Por Joaquim de Carvalho

Paulo Henrique Amorim

A última vez que encontrei Paulo Henrique Amorim foi no restaurante Al Janiah, em São Paulo, num jantar de desagravo ao advogado Rafael Valim, que tinha sido alvo da truculência da Lava Jato, com seu escritório devassado pela Polícia Federal.

Paulo Henrique foi saudado por Celso Antônio Bandeira de Mello, o decano dos advogados presentes, como uma voz da resistência.

E era mesmo.

Para nós jornalistas, era também um mestre.

No Jornal da Band —  que ele criou e depois me chamou para ajudá-lo como chefe do jornalismo em São Paulo — inovou, como sempre fez nos veículos em que trabalhou ao longo dos 58 anos de carreira.

O Jornal da Band foi o primeiro noticiário de TV a começar no mesmo horário do Jornal Nacional. Não tinha, naturalmente, a mesma audiência do produto da Globo, mas a repercussão era gigantesca.

O Jornal da Band levou conteúdo jornalístico para a televisão.

As notícias exclusivas se sucediam, e não eram furos policiais, comuns nos concorrentes, sensacionalistas, mas de política e economia.

Ouvi mais de uma vez que Paulo Henrique Amorim era ligado na tomada de 220 volts. Era 21 anos mais velho, mas tinha um vigor juvenil.

A prioridade dele era a informação de qualidade.

Quando não era possível cobrir a informação com imagem, não deixava de dar a notícia: o repórter ia para o estúdio e comentava.

Hoje, outras TVs fazem a mesma coisa, mas na época, 21 anos atrás, era raro.

Paulo Henrique foi um dos fundadores da Veja, ao lado de Mino Carta, dirigiu a Exame, foi diretor de redação do Jornal do Brasil, correspondente da Globo em Nova York, fundador do Jornal da Band, e apresentador da Cultura e da Record.

Tivemos divergências profissionais, a partir do momento em que aceitei convite para ir para a TV Globo, o que acontece ao longo da vida, mas nunca deixei de reconhecer nele um mestre.

No Al Janiah, falamos daquilo que nos unia: o jornalismo como instrumento de emancipação de um povo e de um país.

Paulo Henrique não era só um mestre no jornalismo de televisão.

Era um mestre da notícia, e com coragem editorial exemplar.

Conhece-se o ditado segundo o qual alguns perdem o amigo, mas não a piada.

Paulo Henrique perdia o amigo, mas não a notícia.

Joseph Pulitzer já dizia, mais de um século atrás: “Jornalista não tem amigo”, ou seja, não protegerá ninguém.

Paulo Henrique Amorim trabalhava pelo Brasil, no sentido mais nacionalista que o nome Brasil pode ter.

Vai fazer falta.

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