
O ex-ministro Paulo Teixeira é um dos debatedores da programação do “Cidades, Clima e o Futuro do Brasil”, que será realizado em parceria acadêmica com a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), com patrocínio do BNDES, nos dias 11 e 12 de novembro. Ele integra a mesa sobre plano diretor e clima, ao lado do urbanista Nabil Bonduki, na noite de 11 de novembro, às 20h45.
Em entrevista ao “DCM ao Meio-Dia” nesta quarta-feira (28), Teixeira explicou o que espera do encontro. “Esse seminário que o DCM está promovendo, e de que vou participar, vai ajudar muito a formular uma agenda ambiental para o nosso país.”
Comida, lixo, água e ônibus
Teixeira começou pelo que conhece da gestão recente. “Eu acho importantíssimo que nas cidades nós tenhamos soberania alimentar”, disse, com as pessoas se alimentando adequadamente e o poder público levando comida aos “desertos alimentares, onde não tem frutas, verduras e legumes, onde se come muito ultraprocessado”. A cidade, para ele, é o lugar da reeducação alimentar, pela merenda escolar, pelo programa de aquisição de alimentos e pelas cozinhas solidárias.
Daí a defesa de duas medidas no território. A primeira é ocupar lotes vazios com hortas comunitárias, que, além de produzir, dão ao solo urbano a função “de absorver a água das chuvas”. A segunda é multiplicar os armazéns que vendem direto da agricultura familiar, a exemplo do que o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, fez na sua cidade. “São Paulo tem cinco armazéns. Nós tínhamos que levar a 40, 50, um em cada distrito.”
O segundo bloco é o lixo. Teixeira quer uma educação ambiental que leve cada um a cuidar do que descarta, da bituca de cigarro à separação do orgânico e do reciclável em casa, e o fortalecimento da logística reversa, que obriga quem vende a recolher a embalagem e o produto velho, com as cooperativas de catadores incorporadas ao sistema. Lembrou que o Brasil está entre os países que mais poluem o mar.
Vêm então a água e o transporte. “Cada casa tem um reservatório de água”, afirmou, defendendo que a chuva, e não o abastecimento tratado, sirva para lavar calçadas e carros, com reserva doméstica “para não gerar enchente”. No transporte coletivo, a troca da frota: “Não dá para ter ônibus a diesel, tampouco ônibus barulhentos nas cidades.”
A várzea do Tietê na mesa
Perguntado sobre as 40 mil pessoas que alagam a cada chuva forte na várzea do Tietê, com a previsão de um El Niño intenso para o verão, Teixeira chamou atenção para uma falha de governança. “A várzea do Tietê é uma área de proteção ambiental do estado de São Paulo, e o estado não tem demonstrado o devido cuidado com ela.” A solução, na sua leitura, tem duas frentes. Para quem não tem alternativa de permanência, moradia nova nas imediações, de modo a preservar “o papel esponja” da várzea, que é absorver a água. Para as ocupações consolidadas, proteção com diques, “que a Holanda sabe fazer tão bem”. É um trabalho, disse, que o estado e a prefeitura “relegaram ao segundo plano”. E assumiu o compromisso de trazer o tema ao seminário, “e eu vou tratá-lo, sim”.
Teixeira também ligou o clima ao campo. As enchentes do Rio Grande do Sul, afirmou, mostraram que o modelo agrícola dos últimos 30, 40 anos compacta o solo e impede a absorção da chuva; a saída seria condicionar crédito e seguro agrícola à regeneração das áreas. Sobre a reforma urbana, lembrou que o Ministério das Cidades nasceu para fazê-la, “mas depende muito das prefeituras também”.
A íntegra da conversa está abaixo:
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São duas noites, das 19h às 22h, com quatro mesas de debate. Em 11 de novembro, a conta da adaptação aos eventos extremos e a relação entre plano diretor e clima, mesa de Teixeira e Bonduki, às 20h45. Em 12 de novembro, o financiamento dessa agenda, com o presidente do IBGE, Marcio Pochmann, e a governança metropolitana, com o professor Daniel Cara, da Faculdade de Educação da USP, e exposição do sociólogo Paulo Silvino Ribeiro, da FESPSP. Cada mesa tem mediação de professores da Escola.
O ponto de partida é uma constatação simples. A crise climática é global, mas a adaptação acontece na cidade, no plano diretor, no orçamento municipal e na coordenação entre prefeituras, Estado e União que as chuvas de cada verão põem à prova.
O seminário será realizado nos dias 11 e 12 de novembro de 2026, das 19h às 22h, na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), localizada na Rua General Jardim, 522, na Vila Buarque, em São Paulo.