“Pedófilo não é ungido”: Vítimas de assédio sexual nas igrejas evangélicas rompem o silêncio

Atualizado em 30 de maio de 2026 às 8:05
Fiéis em celebração – Foto: Reprodução

O Congresso dos Gideões, encontro anual de pastores de diferentes denominações, tornou-se palco de uma fala inesperada no dia 2 de maio. A pastora Helena Raquel afirmou: “Pedófilo não é ungido. Pedófilo é criminoso. Não existe capacidade de se encontrar na mesma figura um pastor e um abusador”. A líder da Vida na Palavra, da Assembleia de Deus, denunciou publicamente casos de abuso sexual que muitas vezes são encobertos nos templos, gerando repercussão no meio evangélico. Com informações da Veja.

A pregação de uma hora e vinte minutos destacou que mudanças devem partir de dentro das igrejas. “A mudança deve vir de dentro, de pastores comprometidos de forma inegociável com a verdade da Bíblia, que repudia a violência e o abuso”, disse Helena Raquel. Seu discurso incentivou mulheres vítimas a começarem a romper o silêncio sobre crimes sofridos.

Ane Almeida, Ana Carollo, Vanilda Bordieri e Pastora Helena Raquel – Foto: Reprodução/Instagram

Relatos de vítimas reforçam o impacto do discurso. A psicóloga Ane Almeida, 42 anos, contou que só reconheceu o abuso aos 16 anos: “Passei a ser vista pelos outros fiéis como um demônio que o seduziu”. Ana Carollo, 30 anos, relatou ter sido atacada aos 12 por um pastor e que a denúncia não foi considerada pela igreja: “Deveríamos tê-lo denunciado, mas tive medo de ser retaliada”.

A cantora gospel Vanilda Bordieri, 52 anos, revelou que sofreu abuso ainda menina: “Líderes da igreja insistiam para que eu saísse com um deles, recém-separado. Ele forçou a relação sexual e foi embora”. Helena Raquel apresentou dados que indicam que mulheres evangélicas sofrem mais agressões sexuais que católicas, provocando reações entre líderes religiosos.

A teóloga Lusmarina Garcia ressaltou que muitas vítimas não reconhecem o abuso por acreditarem na sacralidade do pastor. A administradora Jéssica Korbe, 33 anos, contou que aos 17 anos foi apalpada por um pastor durante um retiro. “O abusador só foi preso quando descobriram a extensão dos malfeitos”, disse, destacando o ciclo de impunidade que pode se repetir em algumas comunidades.

Foram identificados padrões nos abusos: o pastor conquista a confiança da vítima, pratica o assédio e, ao ser confrontado, nega ou admite parcialmente o crime, tentando gerar empatia. Muitos casos não chegam à polícia, e o agressor frequentemente recebe apoio da comunidade. Por décadas, Ane Almeida manteve em silêncio os abusos sofridos na infância, temendo represálias, mesmo ao compartilhar experiências com pastores próximos.

O escudo protetor dos lobos em pele de cordeiro, uma passagem bíblica que impede questionamento de “ungidos de Deus”, reforça a impunidade em algumas situações. Helena Raquel, ao denunciar os abusos, evidencia a necessidade de mudanças estruturais. O discurso impactou o meio religioso e estimulou a visibilidade de denúncias, dando voz às vítimas que permaneciam em silêncio.