Pegaram os arapongas argentinos. Mas quem pega os brasileiros? Por Moisés Mendes

Os espiões que perseguiam Cristina

O homem dessa foto estava pronto para morar no Brasil, onde tem amigos (quem seriam?) e negócios, segundo o jornal digital El Destape.

É Gustavo Arribas, que foi o poderoso diretor geral da Agência Federal de Inteligência (AFI) da Argentina.

O juiz federal Juan Pablo Augé acabou com o seu sonho brasileiro. Ontem, o juiz aceitou a denúncia do Ministério Público contra Arribas e abriu processo por espionagem durante o governo de Mauricio Macri.

Augé impôs uma fiança equivalente a R$ 140 mil, para que o espião fique em liberdade, mas reteve o passaporte e determinou que Arribas não pode sair da Argentina.

A mulher ao seu lado na foto era a sua adjunta na AFI, Silvia Majdalani, que também passa a ser processada. Os dois sofrem a mesma acusação: perseguição e espionagem ilegal contra Cristina Kirchner, durante o governo de Macri. Ela também não pode deixar o país.

Justiça Federal e Congresso fecharam o cerco em torno dos espiões de Macri, que atuaram durante todo o seu governo para vigiar peronistas-kirchneristas, jornalistas, sindicalistas e outros que consideravam inimigos da direita.

A estrutura, dentro da agência oficial, parece ter semelhança com o que estava sendo montado aqui por Bolsonaro na Secretaria de Operações Integradas (Seopi), um organismo federal que Sergio Moro transformou em birô de inteligência no início de 2019. E que agora estaria funcionando como polícia política.

Já está provado na Argentina que o chefe da AFI sabia e comandava as equipes que perseguiam adversários. Assessores diretos de Macri, com salas ao lado do gabinete dele, sabiam do esquema.

E o que o ministro da Justiça, André Mendonça, sabia aqui das ações da Seopi, que é subordinada à sua pasta?

Mendonça falará à Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso amanhã, sexta-feira.

A denúncia sobre o dossiê contra os militantes antifascistas foi feita pelo jornalista Rubens Valente, do UOL, no dia 24 de julho.

No dia 28, publiquei artigo aqui nesse blog e nos sites do Brasil 247 e do DCM sobre a existência no Congresso do Brasil de uma comissão com as mesmas prerrogativas da comissão que investiga os arapongas de Macri no Congresso argentino.

Uma comissão aparentemente inoperante, que terá levado duas semanas, a partir da denúncia de Valente, para ouvir amanhã, por videoconferência, o chefe dos arapongas.

Na Argentina, alguns espiões ouvidos pela comissão (e não só seus chefes) saíram dali para a prisão, depois de delatarem comparsas.

No Brasil, jornalistas amigos do poder já estão espalhando que qualquer bom argumento de Mendonça bastará para o arquivamento do caso. A Seopi, dizem eles, agiria legalmente.

É provável que arquivem o caso e que a nova estrutura da inteligência, que está sendo criada para atender aos apelos de Bolsonaro, seja maior do que a da ditadura.

A Argentina é a Argentina, e o Brasil é o país em que torturadores ainda são homenageados.

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!