Pelé versus Aranha

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Entre as estatísticas majestosas de Pelé, impressiona também o número de oportunidades para manter a boca fechada que o rei deixa escapar.

Ontem, em evento de inauguração de um campo de futebol, Pelé disse que “Aranha se precipitou um pouco em querer brigar com a torcida. Se eu fosse parar o jogo cada vez que me chamassem de macaco ou crioulo, todo jogo teria que parar. O torcedor, dentro de sua animosidade, ele grita. Acho que temos que coibir o racismo, mas não é em um lugar público que vai coibir (…) Quanto mais atenção der para isso, mais vai aguçar.”

Em que mundo está vivendo o rei? Em algum particular, só pode ser.

Pesquisa recente já publicada aqui no DCM coordenada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com dados oficiais, aponta que o número de negros mortos em decorrência de ações policiais para cada 100 mil habitantes em São Paulo é três vezes maior que o registrado para a população branca.

Os dados revelam que 61% das vítimas são negras. Não se deve tocar nesse assunto para não aguçar? Não existe racismo no Brasil de Pelé?

Ele também defendeu que o clube não seja punido quando esses episódios ocorrerem.

Ora, torcedores filiados a torcidas organizadas são subsidiados pelos clubes que, portanto, devem sim ser responsabilizados. Está correto punir o Grêmio assim como defendi que o Corinthians fosse penalizado quando da morte do garoto boliviano na Libertadores.

Não sei o que faz Pelé dar declarações como essa, se a sanha de manter-se na mídia ou se realmente tem essas opiniões. Poderia ser ignorado em razão da alta quilometragem, mas isso não é de hoje. Sua galeria é extensa.

No primeiro semestre desse ano, pediu ao povo que enfiasse o rabo entre as pernas e não protestasse durante a Copa.

Já disse que “O brasileiro não sabe votar”, isso quando mal havíamos saído da ditadura.

Sua postura durante os anos de chumbo instigam. Em 1972, deu uma declaração ao jornal uruguaio La Opinión: “Não há ditadura no Brasil. O Brasil é um país liberal, uma terra de felicidade. Somos um povo livre. Nossos dirigentes sabem o que é melhor para nós e nos governam com tolerância e patriotismo.” Ganhou um Fusca dado por Paulo Maluf com dinheiro público.

Pelé nunca foi um embaixador contra o racismo. É direito dele. Mas deveria manter a boca real fechada sobre essa questão se não for para colaborar. Não há mais Fuscas sendo distribuídos em jogos de futebol e sim ofensivos lançamentos de bananas.

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