Pelo menos cem institutos de previdência investiram em fundos do Banco Master

Atualizado em 7 de fevereiro de 2026 às 7:28
Fachada do Banco Master. Foto: Reprodução

Ao menos cem regimes próprios de previdência estaduais e municipais investiram recursos em fundos ligados ao Banco Master, revelando uma exposição ampla de recursos que financiam aposentadorias de servidores públicos a veículos conectados ao banco controlado por Daniel Vorcaro.

O dado aparece em levantamento da Folha de S.Paulo, feito a partir de informações da Comissão de Valores Mobiliários e do Ministério da Previdência.

O cruzamento dos dados indica que três previdências estaduais e 98 municipais aplicaram recursos em cinco fundos de investimento conectados ao Banco Master. Esses fundos investiram em imóveis, em empresas com participação da família Vorcaro — como a BR Cemitérios — e em ações da Ambipar, que perderam valor após a companhia entrar em crise financeira e deixar de pagar fornecedores e credores.

Os fundos citados são: Texas I (fundo de ações) e os fundos imobiliários Áquila, Osasco Properties, São Domingos e Brazilian Graveyard & Death Care.

De investimentos diretos a aportes indiretos

Até então, era conhecido que diversos institutos de previdência haviam investido diretamente no Master, por meio da compra de letras financeiras do banco. Ao todo, 18 órgãos estaduais e municipais adquiriram R$ 1,8 bilhão desses títulos sem garantia, incluindo os fundos de previdência do Amapá e do Rio de Janeiro.

O levantamento mostra, porém, que mais de uma centena de institutos também foram investidores indiretos, ao comprar cotas de fundos ligados ao banco de Vorcaro. Entre eles há municípios de diferentes portes, inclusive capitais como Goiânia, além dos regimes estaduais do Amapá, Rio de Janeiro e Tocantins.

Antes de 2025, pouco antes de as ações da Ambipar despencarem, os aportes dos institutos nesses fundos somavam R$ 238 milhões. Desde então, o valor caiu 57%, principalmente devido à desvalorização dos papéis da empresa, ativo central do fundo Texas I.

Para chegar aos números, a Folha mapeou a rede de fundos do Banco Master apontados por investigadores como fraudulentos. A teia parte de seis fundos identificados como suspeitos pelo Banco Central e alcança mais de 150 veículos de investimento, cruzados com o banco de dados do Ministério da Previdência, que reúne a carteira de investimentos de todos os regimes próprios do país.

Texas I concentra os maiores aportes

O Texas I foi o fundo que mais recebeu recursos dos regimes públicos. Em agosto de 2025, os aportes somavam R$ 103 milhões. Segundo o Ministério Público Federal, o fundo teria sido usado pelo Master para inflar artificialmente as ações da Ambipar.

Em setembro de 2025, a carteira do Texas I era avaliada em R$ 634 milhões, com 93% aplicados em ações da Ambipar. Três meses depois, em dezembro, o patrimônio líquido havia caído para R$ 122 milhões.

Documentos da investigação apontam que o fundo era controlado pelo Banco Voiter, posteriormente comprado pelo Master e depois vendido a Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro e também investigado pela Polícia Federal.

Prejuízos no Rio e no Amapá

Somados, os institutos de previdência do Rio de Janeiro e do Amapá perderam R$ 100 milhões no Texas I, em aportes feitos entre junho e setembro de 2025, período em que as ações da Ambipar começaram a despencar.

Em ata do Rioprevidência, o diretor Pedro Pinheiro Guerra afirmou, em outubro do ano passado: “A Ambipar era até então uma empresa consolidada, líder de mercado. Não tinha como prever que teria um percalço.”

O ex-presidente do instituto, Deivis Marcon Antunes, foi preso nesta terça-feira (3), acusado de obstrução de Justiça e ocultação de provas.

Policiais da PRF levam o ex-presidente do Rioprevidência Deivis Marcon Antunes para delegacia da PF em Volta Redonda (RJ) nesta terça (3), após ele ser preso em um veículo em Itatiaia (RJ). Os agentes estão identificados com coletes da PRF e estão perto de um portão preto em uma rua com prédios ao fundo. O chão está molhado. Há carros estacionados na via.
Policiais da PRF levam o ex-presidente do Rioprevidência Deivis Marcon Antunes para delegacia da PF em Volta Redonda (RJ) nesta terça (3), após ele ser preso em um veículo em Itatiaia (RJ). Foto: Reprodução/TV Globo

No Amapá, o investimento de R$ 30 milhões, aprovado em setembro — apenas dez dias antes da queda das ações —, virou R$ 4,2 milhões em dois meses.

A Amprev também foi alvo de operação da PF nesta sexta-feira (6) e informou, por e-mail, que os investimentos no Master representam 4,7% da carteira, que se considera lesada e que não abre mão de ser ressarcida.

Outros fundos e investigações

O Áquila é o segundo fundo com mais aportes, com R$ 83 milhões em agosto de 2025. Ele aparece na rede apontada como fraudulenta do Master e foi citado na Operação Fundo Fake, de 2020, por suspeitas de “rebates” pagos a consultorias que assessoravam institutos de previdência. Em 2025, o fundo registrou prejuízo de R$ 20 milhões e teve as contas do ano anterior reprovadas.

Entre os maiores investidores do Áquila está o regime de previdência do Tocantins, com R$ 21 milhões aplicados. Já entre os municípios, Goiânia lidera os aportes. O GoiâniaPrev afirmou que não sacou os recursos para não realizar o prejuízo e declarou: “A baixa liquidez, aliada ao fraco desempenho, inviabilizou o desinvestimento.”

Os fundos São Domingos e Brazilian Graveyard receberam R$ 20 milhões e R$ 16 milhões, respectivamente. O São Domingos contou com aportes de 12 institutos, e o Brazilian Graveyard, de 52. Ambos integram a rede de fundos ligados ao Master e têm participações cruzadas entre si, além de ativos de empresas da família Vorcaro.

Procurada, a Planner disse que “não possui, nem jamais possuiu, qualquer vínculo com o Banco Master” e que atua em conformidade com as normas do mercado financeiro.