”Penso em muitas empregadas domésticas: vocês lhes pagam o que é justo?”, questiona o papa Francisco

Papa Francisco. Foto: Wikimedia Commons

Publicado no Unisinos

Uma das tarefas da Quaresma é o jejum. Sim, mas deve ser feito com coerência. Deve ser praticado “para ajudar os outros, sempre com um sorriso”. Foi a exortação do Papa Francisco na homilia da manhã dessa sexta-feira, 16 de fevereiro, na Casa Santa Marta.

O pontífice reiterou a importância de se humilhar, pedindo perdão ao Senhor pelos próprios pecados. Depois, falou sobre as empregadas domésticas e denunciou que, muitas vezes, elas são maltratadas e pagas de modo inadequado.

O bispo de Roma, portanto, convidou a jejuar com coerência, não para se mostrar ou desprezado os outros. Na pregação, ele lembrou que o jejum é uma das tarefas da Quaresma, e, “se você não pode fazer um jejum total, aquele que faz sentir fome até os ossos, faça um jejum humilde, mas verdadeiro”, pediu o papa.

Sempre se cuidam dos próprios negócios, do dinheiro, enquanto o jejum é “um pouco despojar-se”. Além disso, é preciso evitar desprezar os outros que estão em dificuldade: “pobrezinhos”, ressalta Francisco, devem jejuar porque não têm o que comer, “e você também os despreza”.

O pontífice convidou a não se orgulhar do jejum, dizendo “nós jejuamos, nós somos católicos, praticamos, eu pertenço àquela associação, nós jejuamos sempre, fazemos penitência”. Em vez disso, “jejuem com coerência”, recomendou. Caso contrário, “vocês fazem a penitência incoerentemente como diz o Senhor, com barulho, para que todos a vejam e digam: ‘Que pessoa justa, que homem justo, que mulher justa…’. Isso é uma maquiagem; é maquiar a virtude”, advertiu o Papa Bergoglio.

É preciso se maquiar, mas a sério, com o sorriso, isto é, não mostrar que se está fazendo penitência. Jejue “para ajudar os outros, mas sempre com um sorriso”, encorajou Francisco.

O jejum também consiste em se humilhar, e isso se realiza pensando nos próprios pecados e pedindo perdão ao Senhor. “Mas, se este pecado que eu cometi viesse a público, acabasse nos jornais, que vergonha!” – “Sim, envergonhe-se!”, exclamou o papa, encorajando a pôr fim às injustiças de todos os dias que podem ser perpetradas até mesmo dentro das próprias casas.

Depois, o papa deu o exemplo das trabalhadoras domésticas às vezes maltratadas: “Penso em tantas domésticas que ganham o pão com seu trabalho: humilhadas, desprezadas… Nunca pude esquecer uma vez em que eu fui à casa de um amigo, quando criança. Eu vi a mãe dar um tapa na doméstica, de 81 anos… Não esqueci aquilo. ‘Não, padre, eu nunca dou uma bofetada’. ‘Mas como você as trata? Como pessoas ou como escravas? Você lhes paga o que é justo, lhes dá férias? É uma pessoa ou um animal que lhe ajuda na sua casa?’ Apenas pensem nisso. Elas estão nas nossas casas, nas nossas instituições. Como eu me comporto com a doméstica que tenho em casa, com as domésticas que estão em casa?”.

Jorge Mario Bergoglio contou, então, que, ao falar com um senhor muito culto que explorava as domésticas, disse-lhe que se trata de um pecado grave, porque elas são “como nós, imagem de Deus”, enquanto ele defendia que eram “gente inferior”.

O jejum que o Senhor quer também consiste em “dividir o pão com o faminto, em introduzir em casa os miseráveis, sem-teto, em vestir alguém que você vê que está nu, sem negligenciar os seus parentes. Hoje – observou Francisco – discute-se se damos teto ou não àqueles que vem pedir. O meu jejum chega a ajudar os outros? Se não chegar, é falso, é incoerente e leva você pela estrada de uma vida dupla. Finjo ser cristão”.

Então, é necessário invocar “humildemente a graça da coerência”. Se eu não posso fazer algo, não a faço. Mas não a fazer incoerentemente”, advertiu o papa. “Fazer apenas aquilo que eu posso fazer, mas com coerência cristã. Que o Senhor – concluiu – nos dê essa graça”.