Perda de US$ 33 bilhões de reservas em 2019 é fruto da incapacidade política do governo, diz economista ao DCM

Ministro da economia, Paulo Guedes, o Posto Ipiranga que está torrando as reservas do país. (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

O Brasil sacudiu na semana do Carnaval e não foi nos blocos nem nos bailes de salão.

Foi no prédio da Bolsa de Valores, que viveu uma situação inédita de fuga de investimentos da ordem de R$ 3, 068 bilhões num único dia, quarta-feira de cinzas, 26 – a soma das perdas nos dois primeiros meses do ano mais o consolidado de 2019 já chega em R$ 80 bilhões apenas no mercado de ações.

A essa conjuntura se soma outro fato histórico ocorrido no ano passado: o déficit no mercado cambial de US$ 33 bilhões, com o governo tendo de lançar mão das reservas internacionais do país para cobrir o buraco.

O fenômeno que já é conhecido como o maior crash econômico vivido pelo Brasil leva à inevitável comparação com a Argentina de Maurício Macri, um governo que começou com apoio incondicional do ‘mercado’ e acabou nas cordas.

Para entender o que se passa no cenário econômico, o DCM falou com o economista Paulo Nogueira Batista, que trabalhou no Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington (EUA), e foi vice-presidente do Banco do Brics, que ajudou a criar.

DCM: Em apenas 14 meses desse governo, a economia brasileira bateu dois recordes negativos: saída de R$ 80 bilhões da Bolsa e o avanço sobre as reservas do país da ordem de US$ 33 bilhões para cobrir o déficit no mercado cambial no ano passado.

O que isso significa?

Paulo Nogueira Batista: Em 2019, segundo dados do Banco Central, o hiato financeiro do balanço de pagamentos, isto é, o déficit no mercado cambial alcançou valor elevado, de US$ 33 bilhões.

Esse hiato foi coberto por intervenções do Banco Central no mercado, reduzindo as reservas internacionais do país.

O desequilíbrio reflete vários fatores.

Um dos principais foi a queda da taxa de juro interna, que tornou o real menos interessante para aplicações financeiras de curto prazo.

Outro fator foi a gradual perda de confiança na política econômica do governo e na sua capacidade de articulação política.

Do lado externo, tivemos a instabilidade provocada pela guerra comercial instigada por Trump e as crises no Oriente Médio.

A isso vem se somar, no início de 2020, o efeito do coronavirus, que pega a economia mundial em posição vulnerável.

Qual o impacto para o cidadão dessa fuga em massa de recursos para o exterior?

Para o cidadão comum, um efeito importante dessa saída de recursos é a depreciação cambial, que encarece os importados, os bens produzidos com insumos importados e as viagens internacionais, destacadamente para a emblemática Disney.

A depreciação eleva o custo de vida e deprime o poder de compra do salário.

Por outro lado, ela não é necessariamente má, se não extrapolar certos limites, pois acaba favorecendo a produção de bens e serviços no país, estimulando exportações e os setores que competem com importações.

O que é possível fazer para conter a situação?

O governo pode conter a depreciação do real, usando reservas para aumentar a oferta de moeda estrangeira no mercado.

Mas isso tem limites. Se for muito longe, deixa o país vulnerável. Já houve perda importante de reservas desde meados de 2019.

No plano interno, seria importante pacificar as relações do Executivo com o Congresso e evitar confusões inúteis. Só que é quase utópico pedir isso ao governo Bolsonaro…

Existe uma crise de credibilidade, a culpa é do coronavírus ou movimentos bruscos assim são considerados normais?

Nota-se perda de confiança no país.

As dificuldades cambiais e econômicas do Brasil antecedem o coronavirus.

Mas esse novo choque externo parece grave, e os movimentos que estamos vendo em fevereiro estão fora da normalidade.

Não se pode descartar um cenário no médio prazo em que o governo Bolsonaro repete, de certa maneira, a trajetória do governo Macri na Argentina: governo que começa com apoio dos mercados e da ortodoxia e termina nas cordas.

O que o brasileiro deve esperar de 2020?

O brasileiro pode esperar mais um ano difícil.

No final de 2019, haviam renascido as esperanças de algum crescimento maior em 2020, algo como 2,5%.

Agora, já se acredita que o crescimento deve continuar medíocre e o desemprego, elevado.

Se chegar a 2%, será uma vitória.

Mas, se houver um agravamento do quadro externo em função do coronavirus, nem crescimento medíocre teremos.

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