Perseguição, dona Michelle Bolsonaro, é o que sofreu Dilma, que nunca ficou de mimimi. Por Nathalí 

Michelle.
Foto: Adriano Machado/Reuters

Ao que tudo indica, a mamata não apenas não acabou, como vem encontrando na crise terreno fértil para se tornar cada vez mais deslavada por debaixo dos panos.

Uma verba de 7,5 milhões de reais doada pela empresa Marfrig para a compra de testes rápidos de COVID foi parar na mão de  instituições missionárias evangélicas da turma da Dona Damares, graças a um desvio de finalidade do Governo Bolsonaro, que repassou a verba para o programa “Pátria Voluntária”, liderado pela primeira-dama Micheque, digo, Michelle Bolsonaro.

Embora o Ministério da Casa Civil tenha informado à empresa que a verba seria aplicada “com fim específico de aquisição e aplicação de testes de Covid – 19”, acabou por repassar os recursos para o programa coordenado pela primeira-dama, sem edital de concorrência, sob a alegação pífia de “utilizar a verba em outras ações de combate à pandemia.”

No país de mais de 144 mil mortes, piada mundial no que se refere ao combate à pandemia (vamos combinar? no que e refere a qualquer coisa), 7,5 milhões para os evangélicos, e nenhuma palavra de explicação – a família Bolsonaro não gosta de se explicar.

E o pior é que insistem – onde já se viu? – em ligar a mulher de Bolsonaro ao Bolsonaro.

O Tribunal de Contas da União, que pediu abertura de investigação do caso, só pode ser comunista. Ou cristofóbico. Ou ambos.

Bolsonarofobia, é disso que o Brasil padece.

Enquanto isso, a pobre primeira-dama perseguida se ocupa em tentar defender a própria reputação (amiga, se casar com um Bolsonaro é abrir mão tacitamente da sua reputação): ela foi à polícia para ratificar uma queixa-crime já apresentada em razão de “ofensas e piadas infames em redes sociais” – depois são as feministas que gostam de se vitimizar…

Não importa se Michelle recebeu cheques na rachadinha, não pode ficar chamando a moça de Micheque. Nem perguntar pelo Queiroz. Aliás, seria melhor esquecer o número 89 por um tempo.

Achei ofensivo, apaga.

Na verdade, essa estratégia não foi inventada por Dona Michelle, talvez seja uma tática mais velha que a avó que ela abandonou:  quando tiver que se explicar, se faça de ofendido e vire o jogo.

A polícia não virá até você se você for até ela antes – então só diga que está sendo caluniada, difamada e injuriada, e tente censurar os que te criticam. Vai funcionar, especialmente se você for a primeira-dama do seu país.

Até a música do Denonautas intitulada “Micheque” está na mira da censura estapafúrdia de  Michelle, que quer – e vai ficar querendo – vê-la fora do ar e proibir sua reprodução.

Agora imagina se Dilma tivesse procurado censurar todos os imbecis que a criticaram.

Se tivesse acusado de injúria um estádio de futebol inteiro. Imagina se ela tivesse desviado a finalidade de mais de 7 milhões e mandado prender cada energúmeno que colou um adesivo seu com as pernas abertas no tanque de gasolina?

Isso sim é ofensivo, injusto, inaceitável.

Perseguição, dona Michelle, é o que sofreu Dilma Rousseff, uma mulher íntegra, uma mulher que tem, de fato, a reputação ilibada que você gostaria de ter.

Isso aí de que você tem tanto reclamado e chorado para a polícia não é perseguição, é apenas a prova de que, embora pareça, não vivemos em um país de (completos) retardados.

Você não pode se casar com um genocida e depois procurar a polícia porque a opinião pública te odeia.

Não funciona assim. Você pediu, agora chupa.

E já que você gosta tanto de procurar a Polícia, poderia aproveitar para enfim explicar o que o Brasil quer saber: por quê Queiroz depositou 89 mil reais na sua conta, primeira-dama?

Cadê a verba para os testes de COVID?

Ficam – talvez para a posteridade – os questionamentos.