Pesquisa é tudo, mas não é 100%

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O Brasil tem cerca de 142 milhões de eleitores. A última pesquisa IBOPE de intenção de voto para presidente ouviu 3 010 eleitores. Isso representa 0,002%.

Para representar o eleitorado, a amostra deve ter a mesma proporção de homens e mulheres, de jovens e idosos e outras características demográficas que a população total de pessoas que votam.

Mas é possível fazer uma reprodução de algo tão heterogêneo como a população de um país da dimensão do Brasil colocando no microscópio míseros 0,002% ? Com tão poucos representantes, impossível que os critérios subjetivos do entrevistador na escolha do entrevistado não interfiram.

Esse tipo de micro universo tanto não é capaz de representar o  todo como pode ser facilmente verificado em constantes aberrações nos resultados. Diversas vezes vimos nas últimas semanas a atual presidente e candidata à reeleição perder pontos na intenção de voto ao mesmo tempo em que a aprovação de seu governo subia. É o eleitor quem chupa sorvete com a testa ao aprovar um governo mas descartar a continuidade ou pesquisa é algo suspeito e cujo “grau de confiança” é bem menor do que os 95% propalados? Fio-me aos 5% restantes.

No capítulo sobre criminalidade do livro Longe da Árvore, Andrew Solomon cita uma pesquisa feita com 2 milhões de adolescentes americanos. Dois milhões. Uma pesquisa sobre algo importante, que envolve planejamento para futuro, perspectivas, desenvolvimento, abrangeu 2 milhões de pessoas.

Ouvir tanta gente assim demora? Demora, claro, mas para que a pressa de ficar divulgando pesquisas a cada 3 ou 4 dias?

O único evento extraordinário que alterou o cenário e requereu alguma medição urgente foi a entrada de Marina Silva. De resto, as oscilações dos gráficos nada mais são do que buscas aleatórias de entrevistados outros que não os anteriores. Só refletiriam alguma reação do eleitor se o mesmo entrevistado fosse questionado novamente. Nem mesmo a quantidade de entrevistados se mantém (uma é feita com 10 mil pessoas, a seguinte com 3 mil, outra com 5 mil…). Na verdade mais se parecem com simulações por demanda em conformidade com o noticiário. Joga-se um escândalo nas manchetes e corre-se fazer uma pesquisa.

Retratar a preferência por um presidente da república de uma nação de mais 200 milhões de habitantes tomando como base 3 mil gatos pingados e veicular isso na forma de verdade quase absoluta (os alegados 95% de confiabilidade), é no mínimo irresponsável.

Há uma frase veiculada na campanha de Paulo Skaf que é verdadeira: faz 20 anos que São Paulo vota no PSDB para não votar no PT. É assim que o eleitorado vota, sem obedecer sua ideologia e sim de maneira reativa às pesquisas. Vota contra alguma coisa ou apoiado no “já ganhou mesmo”.

As pesquisas são responsáveis pelo comportamento “voto útil” ou “voto contra”. A preguiça dos despolitizados faz o voto se dar não pela convicção político-ideológico e sim com desleixo. Eu não acredito em pesquisas, mas que elas existem, existem.

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