“O Brasil não se deu conta da radicalização online em massa”, diz pesquisadora sobre neonazista do ES

DCM entrevista Michele Prado

Atualizado em 27 de novembro de 2022 às 19:32
Assassino
O assassino de Aracruz (ES): suástica no braço. Foto: Reprodução

Michele Prado pesquisa a extrema direita bolsonarista e a relaciona com a alt-right americana. Autora do livro “Tempestade Ideológica”, ela lançou “Red Pill Radicalização e Extremismo”.

A escritora de Vitória da Conquista, na Bahia, escreveu em sua conta no Twitter no dia dos assassinatos em duas escolas de Aracruz, no Espírito Santo:

“Atirador estava com uma skull mask, máscara de caveira utilizada por grupos extremistas aceleracionistas ligados ao Iron March, um fórum online neofascista/neonazi que existiu entre 2011 e 2017. E agora virou uma rede transnacional neofascista”.

E ela completou:

“O aceleracionismo é a crença de que forças específicas devem ser aceleradas para efetuar mudanças sociais. Alguns grupos de extrema direita adotaram uma forma violenta de aceleracionismo para promover o terrorismo e outros atos violentos, a fim de acelerar a queda de uma ordem social”.

O criminoso estava, além da máscara, com uma suástica e usou um revólver de grosso calibre para cometer o crime, além da pistola do pai. O ataque foi contra uma escola pública e uma privada no ES.

O atirador que invadiu duas escolas em Aracruz, no Espírito Santo, nesta sexta (25) é um adolescente de 16 anos e filho de um policial militar leitor de Hitler. Ele usou as armas do pai para realizar o ataque e o carro da mãe para fugir. O jovem foi encontrado no início da tarde por policiais e preso na casa da família.

Ele matou quatro pessoas, dois estudantes menores de idade e duas professoras. Uma das docentes era Maria da Penha de Melo Banho. Ela tinha 48 anos e era mais conhecida apenas como Penha.

A professora era evangélica, dava aulas de artes e atuava na alfabetização de crianças na escola há menos de um ano. Era casada e tinha três filhos.

O DCM procurou Michele Prado para saber a sua análise sobre o atentado extremista.

Diário do Centro do Mundo: O assassino estava usando uma braçadeira neonazista e uma máscara que lembra a cultura gamer de fóruns. As autoridades estão monitorando muito mal o ambiente digital?

Michele Prado: O Brasil infelizmente ainda não se deu conta do processo de radicalização online em massa que está em curso e nem há abordagens com foco em radicalização e contra-extremismo.

Os órgãos judiciais e de segurança precisam de uma ampla atualização com foco em extremismo. Conhecer a gigantesca iconografia extremista que circula livremente hoje; compreender os marcadores que indicam potencial de violência ideologicamente motivada.

Precisa fazer o monitoramento nas redes e saber quais são as características, os marcadores e onde estão essas subculturas online extremistas para saber como operam.

É bastante provável, por exemplo, que as pegadas digitais do atirador de hoje no Espírito Santo apontem para sua inserção em uma subcultura online extremista chamada tcctwt, “true crime community”, nas quais terroristas domésticos, assassinos em massa, são glorificados. 

A tcctwt tem intersecção com outras subculturas online extremistas como as da manosfera, um ecossistema digital de misoginia extrema.

DCM: Como eles operam?

MP: Radicalização o extremismo precisam ter abordagem como questão social, de saúde e de segurança pública.

As plataformas, por exemplo, precisam ser mais colaborativas e o Brasil precisa se inserir nas discussões globais em relação ao extremismo violento ou não. 

Para você ter uma ideia do quanto estamos atrasados e com nenhuma colaboração, após eu ter encontrado o perfil online do atirador aqui da Bahia e ter enviado para a SSP-BA, levei mais de 10 horas para conseguir derrubar o perfil dele no Twitter. 

No perfil havia, além de uma tonelada de discurso de violência extrema, o anúncio do massacre e o manifesto que ele produziu. Levei 10 horas para derrubar o perfil e só consegui porque tive auxílio de um funcionário do Twitter.

O Brasil também nem faz parte do GIFCT (Global Internet Forum to Counter Terrorism) , “que reúne indústria de tecnologia, governo, sociedade civil e academia para promover a colaboração e o compartilhamento de informações para combater o terrorismo e atividades extremistas violentas online”.

Ontem, por exemplo, ocorreu um episódio que precisei recorrer à dra. Samantha Kuner, uma amiga pesquisadora que faz parte do GIFCT e do ARC (pesquisa avançada sobre conflitos). 

Fiz uma denúncia a respeito de uma editora neonazista que está comercializando o manifesto terrorista do assassino extremista de direita Brenton Tarrant como se fosse um livro de filosofia política. Tarrant foi o terrorista do atentado em Christchurch, Nova Zelândia, em 2019, que matou 51 pessoas. 

Após eu fazer a denúncia, três perfis compartilharam meu tuíte anexando o vídeo do massacre.

Quando ocorrem atentados ss extremismo violento/terrorismo, o GIFCT emite um protocolo de segurança para as plataformas digitais e esse tipo de vídeo é removido. 

Mas, como o Brasil não está no GIFCT, tive que recorrer à doutora Kutner para conseguir derrubar o vídeo e a conta.

Não existe no Brasil, ainda, uma abordagem profissional e multissetorial do extremismo e radicalização. Infelizmente.

DCM: Você escreveu dois livros sobre a alt-right. Bolsonaro parece estar cada vez mais conectado com Steve Bannon. Você enxerga a necessidade de mais pesquisas com diferentes abordagens nesse campo?

MP: Sem dúvida é urgente a abordagem a respeito da extrema direita com foco em sua transnacionalidade. A internet rompeu os limites físicos e territoriais,  que anteriormente dificultavam a disseminação de seus conceitos. 

O perímetro que antes era o bairro, a cidade, agora ele é global e a extrema direita, especificamente, foi o primeiro espectro ideológico a perceber que a www seria uma ferramenta indispensável na amplificação de seus conceitos. 

E até hoje dominam o uso da Internet. Além disso, quando analisamos as influência intelectuais da extrema direita contemporânea, percebemos nitidamente que é como uma teia transnacional que carrega influências e conexões desde com a Nouvelle droite (extrema direita francesa), ao russo Duguin, da far-right americana como paleolibertários e paleoconservadores até os grupos identitários extremistas da Europa oriental. 

Não é estática.

Aracruz
O jovem terrorista e sua Skull Mask
Foto: Reprodução

DCM: Você diz que o atirador estava com uma Skull mask, máscara de caveira utilizada por grupos extremistas aceleracionistas. Novos símbolos mostram o aprofundamento dos laços sociais da extrema direita na sociedade?

MP: A extrema direita já está no mainstream. Disseminada no debate público e na sociedade. 

Mesmo sem ir em busca dos conteúdos extremistas, eles chegam na palma das nossas mãos através dos algoritmos das plataformas; outras vezes em mensagens codificadas.

Eles estão em símbolos que muitos desconhecem.

DCM: Você relatou nas redes pais denunciando processo de radicalização de crianças nessas novas investidas da extrema direita. Precisamos rever a educação política?

MP: Precisamos começar uma abordagem da radicalização e do extremismo, em especial o extremismo de direita. Conforme dados empíricos, é a maior ameaça doméstica não apenas no Brasil mas em muitos outros países. 

Ainda não há nenhum programa de prevenção da radicalização e contra-extremismo aqui no Brasil. Nem mesmo um campo de estudo acadêmico específico em P/CE e P/CVE, que é prevenção e contra-extremismo e prevenção e combate ao extremismo violento.

Estamos enormemente atrasados na área em relação a outros países. Será necessário investimento de forma sustentada para fornecer ferramentas a pais, professores, cuidadores, profissionais da saúde mental e órgãos de segurança.

Isso facilita o reconhecimento com antecipação dos sinais de radicalização para haja tempo de uma intervenção, por exemplo.

A radicalização online atinge hoje uma faixa etária que vai dos 10 aos 90 anos. O grupo alvo de agentes extremistas recrutadores é o público mais jovem, pois mais vulneráveis, ainda em formação da própria identidade, com uma imensa necessidade de pertencimento a um grupo. 

Uma geração que passa muito mais tempo online com quase exclusivamente interação parassocial, nas redes.

Pai PM, que é leitor de Hitler, do jovem assassino no Espírito Santo
O pai PM do jovem assassino no Espírito Santo. Foto: Reprodução

DCM: Está produzindo novos livros?

MP: Estou finalizando um capítulo extra que decidi acrescentar no novo livro, “Red Pill”, chamado “radicalização e extremismo em nome de Deus, dos Homens e da Liberdade”.

Vem com um pequeno manual a respeito de desradicalização após ter recebido, nos últimos meses, dezenas de pedidos de ajuda de pessoas que estão com familiares radicalizados, principalmente no bolsonarismo.

O livro atrasou por isso. Assim que finalizar a impressão e envios, meu próximo projeto será a criação de um centro de estudo e pesquisa em radicalização e extremismo, com a sociedade civil também.

Queremos efetuar intervenções eficazes na prevenção da radicalização e contra-extremismo e que possam se tornar políticas públicas.

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