Petra Costa, se quer fazer bom documentário sobre a peste, não fique em casa. Por Moisés Mendes

A cineasta Petra Costa está pedindo pelas redes sociais que as pessoas enviem vídeos com depoimentos sobre as suas vidas na pandemia. É para um documentário.

É legal, mas tem uma armadilha que derrubou alguns documentaristas brasileiros em produções recentes.

É a arapuca dos novos tempos virtuais da fala autorreferente. É importante, porque assim se preservam sentimentos e memórias, mas não em excesso e como eixo de um documento sobre uma realidade nunca vista.

A própria Petra ouviu muitas críticas porque Democracia em Vertigem, seu documentário sobre o golpe, que concorreu ao Oscar, foi conduzido pela voz da diretora como protagonista.

Se um documentário sobre a pandemia cair na armadilha do cinema de depoimento confessional, por mais diversificado que seja o conjunto de falas, poderemos ter a repetição do que já se ouve hoje.

É preciso ouvir as pessoas. Claro que é. Vale para documentaristas, jornalistas, psicólogos, padres.

Mas o documentário que o Brasil pede hoje não é o de vozes reflexivas, é a das vozes atormentadas em todas as modulações possíveis dentro, nas beiradas e fora dos campos de batalha.

Vozes e ações de médicos, de enfermeiras, dos pacientes, dos motoristas de ambulância, dos plantonistas de todos os lugares por ondem passam hoje fios de vida e prenúncios de morte.

Vozes reflexivas, captadas pelo dono da voz ou por quem estiver por perto, não seguram um documentário sobre o medo em estado permanente de urgência, por mais dramáticos e profundos que sejam os depoimentos.

Hoje, um documentarista tem de ir aonde a peste está. Não só dentro dos hospitais. É tarefa para quem põe os pés no barro das trincheiras que puxam para dentro da escuridão.

Não tente segurar um documentário com as vozes da classe média que tem smartphone, Petra Costa. Vá até onde não há telefone capaz de fazer um vídeo.

Inspire-se no cinema de memórias de gente invisível de Eduardo Coutinho, pegue um banquinho e uma câmera e vá enxergar a tortura na cara das pessoas na fila do CPF.

Pegue ambulâncias chegando e saindo, enfermeiras chorando pelos corredores, vá às áreas verdes saber o que os jovens paulistanos imortais da Praça do Pôr do Sol pensam dos medos coletivos dos outros.

Não se contente com os depoimentos dos brancos em clausura. Vá conversar com as caixas de supermercados que pegam ônibus e metrôs todas as madrugadas para depois ouvir tiozinhos falando da ameaça do comunismo chinês e lançando perdigotos sobre suas máscaras de plástico.

Fique o mais perto possível de um respirador mecânico.

Suba o morro, Petra, onde a pandemia ainda está na base das escadarias e das ruelas e dos corredores úmidos.

Vá acompanhar as carreatas da morte dos novos ricos em suas caminhonetes bacanas. Não fique esperando os depoimentos dessa gente.

Não faça um documentário de ideias sob tensão, mas da vida que se move para fugir ou se encontrar com o coronavírus nas ruas e nas igrejas neopentecostais.

Não faça encomendas de vídeos. Vá ouvir a elite omissa e covarde e ver como se comporta temerosa de levar o cachorro para passear e cagar pelas calçadas da Barra da Tijuca, do Parcão e dos Jardins.

Não faça um documentário-cabeça nem excessivamente sentimental. Não dê muito espaço para que as senhoras de classe média se sintam num confessionário como heroínas capazes de enfrentar uma solidão imposta por lei.

Documentaristas estão autorizados a sair de casa. Não fique em casa, Petra.

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