
A Polícia Federal apontou que o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, atuou para manipular avaliações públicas do aplicativo da instituição e impulsionar comentários positivos sobre sua imagem e a do conglomerado financeiro. O aplicativo era usado por clientes antes de o Banco Central determinar a liquidação extrajudicial do Master, em novembro de 2025.
A constatação aparece em relatório anexado à investigação que tramita no Supremo Tribunal Federal sob relatoria do ministro André Mendonça. O documento chegou a ficar público por decisão do ministro, mas o sigilo do processo depois foi restaurado.
Em uma troca de mensagens de 20 de dezembro de 2023, Luiz Phillipi Mourão, conhecido como Sicário, avisou Vorcaro sobre a baixa avaliação do aplicativo nas lojas virtuais. “Está (sic) muito baixo as avaliações eu pedi para subi-las”, escreveu, ao enviar prints que mostravam nota 3,1 na App Store e 2,2 no Google Play, em uma escala de até 5 estrelas.
Vinte dias depois, em 9 de janeiro de 2024, Mourão voltou ao assunto e indicou avanço na avaliação do aplicativo. “Está subindo…”, disse, mostrando que a nota na App Store havia saltado de 3,1 para 4,1 estrelas. Nesse período, surgiram 81 novas avaliações, mas a investigação não apontou quantas teriam sido produzidas artificialmente.

PF aponta estratégia para fabricar reputação digital
O relatório da PF afirma que as ações “evidenciam uma estratégia coordenada de fabricação de reputação digital, que não reflete a experiência real dos usuários, mas sim um esforço deliberado para influenciar a opinião pública e melhorar artificialmente a imagem empresarial do banqueiro”. Em 6 de abril de 2024, Sicário também avisou Vorcaro que começaria a subir comentários positivos em uma publicação da revista “IstoÉ”.
Os prints reunidos na investigação destacam comentários atribuídos a leitores comuns, como “Acensão (sic) astronômica desse empresário”, “Cada palavra desse cara vale ouro” e “Parabéns ao empresário”. Quando Sicário perguntou “Uns 100 [comentários] em cada?”, Vorcaro respondeu: “Não precisa isso tudo. E não precisa forçar demais no positivo. Fazer mais natural. Sem elogio demais”.
O levantamento dos perfis associados aos comentários indicou que a maioria das contas hoje está inativada ou tinha poucas fotos e baixo engajamento. Em 24 de janeiro de 2024, Sicário relatou a Vorcaro que haviam sido publicadas “31 matérias positivas nos últimos dias”, das quais sete já apareciam na primeira página do Google, e acrescentou: “Estamos subindo as reviews e avaliações do banco no Google Meu Negócio, Apple App Store, Google Play Store”.
Vorcaro também pediu comentários elogiosos em uma postagem do “Brazil Journal”, que publicou uma reportagem com menção ao plano do Master para financiar empresas. O banqueiro tentou formar um conglomerado de mídia que incluiria o “Brazil Journal” e a “IstoÉ”, conforme relato do publicitário Thiago Miranda, alvo de busca e apreensão na quinta-feira (09) em operação que revelou mensagens sobre um dossiê contra o CEO do Banco Itaú.
A ofensiva digital reapareceu após o “Brazil Journal” publicar no Instagram que o Master havia comprado o banco digital Will Bank, descrito como instituição com mais de 6 milhões de clientes e forte presença no Nordeste. Depois de Sicário avisar que os comentários estavam subindo, Vorcaro respondeu: “Pede para os comentários não serem só muito bons não. Que dá na cara demais kkkk”.