PF mira ex-tesoureiro de Alcolumbre que agradeceu por indicação à Previdência do Amapá

Atualizado em 6 de fevereiro de 2026 às 12:03
Homem de meia-idade com óculos, terno azul e gravata vermelha está em pé em sala de reunião com mesas em formato de U. Ao fundo, bandeira do Brasil, crucifixo na parede e aparelho de ar-condicionado.
Diretor-presidente da Amprev, Jocildo Lemos. Foto: Reprodução

Jocildo Silva Lemos, diretor-presidente da Amprev (Amapá Previdência) e alvo da operação da Polícia Federal deflagrada nesta sexta-feira (6), já foi tesoureiro da campanha do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e agradeceu publicamente ao senador por tê-lo indicado ao comando da autarquia.

Batizada de Zona Cinzenta, a operação investiga a Amprev, responsável pelo regime próprio de previdência do Amapá, por investimentos no Banco Master, de Daniel Vorcaro. Além de Lemos, a PF mira dois integrantes do comitê de investimentos: Jackson Rubens de Oliveira e José Milton Afonso Gonçalves.

Lemos foi nomeado para a presidência da Amprev em 2023 pelo governador Clécio Luís (União Brasil), após indicação de Alcolumbre. O órgão também tem Alberto Alcolumbre, irmão do senador, no cargo de conselheiro fiscal, mas ele não é alvo da operação.

Em um evento público em 2024, Lemos disse: “Aqui eu faço um agradecimento especial ao governador Clécio Luis (União Brasil), que fez a nomeação, e sobretudo ao senador Davi Alcolumbre, que me convidou para ser o presidente da Amapá Previdência.”

Lemos também integra a executiva do União Brasil no Amapá. Ele ainda concilia as funções com a presidência da Liesap (Liga Independente das Escolas de Samba do Amapá).

O diretor-presidente da Amprev, Jocildo Silva Lemos e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Foto: Reprodução

O que a PF investiga

Segundo a Polícia Federal, a apuração busca identificar possíveis irregularidades na gestão de recursos do Regime Próprio de Previdência Social do Amapá. A investigação foca investimentos em letras financeiras emitidas pelo Banco Master.

A PF cumpre quatro mandados de busca e apreensão, expedidos pela 4ª Vara da Justiça Federal, em Macapá. Estão sob investigação os crimes de gestão temerária e gestão fraudulenta.

Aplicações em sequência somaram quase R$ 400 milhões

Documentos reunidos na investigação apontam que, em menos de 20 dias, foram aprovadas e executadas três aplicações sucessivas em letras financeiras do Master, totalizando quase R$ 400 milhões. As decisões foram tomadas em três reuniões, em julho de 2024.

A operação foi articulada por Lemos, que, segundo a investigação, ignorou alertas do MPF (Ministério Público Federal) e do TCU (Tribunal de Contas da União) sobre investigações de fraudes. Dois integrantes do Comitê de Investimentos fizeram ressalvas sobre a compra dos títulos do banco de Daniel Vorcaro, mas o diretor-presidente minimizou os alertas.

De acordo com o balanço de 2024, o fundo de previdência do Amapá tinha ativo circulante de R$ 10 bilhões, sendo R$ 8,3 bilhões em investimentos e aplicações temporárias de curto prazo. O patrimônio líquido, descontados passivos e valores a pagar a servidores no curto e no longo prazo, apresentava déficit de R$ 387 milhões.

Deputado pede afastamento e promete CPI

O deputado estadual do Amapá Errinelson Vieira Pimentel (PL) afirmou que prepara um ofício e um requerimento ao governador do estado exigindo o afastamento ou exoneração imediata do diretor-presidente. Ele disse ainda que, na próxima semana, apresentará pedido de abertura de uma CPI.

“Os fatos envolvendo o investimento de R$ 400 milhões no Banco Master, somados à operação da Polícia Federal realizada hoje, são gravíssimos e não podem ser tratados com silêncio ou omissão”, escreveu nas redes sociais.