PGR aponta que Tanure recebeu recursos desviados do Master e atuou como sócio oculto

Atualizado em 14 de janeiro de 2026 às 10:35
Nelson Tanure, empresário investigado pela PF. Foto: reprodução

A Procuradoria-Geral da República afirmou que o empresário Nelson Tanure recebeu valores desviados do Banco Master e operou como sócio oculto de Daniel Vorcaro, dono da instituição. A informação consta do pedido apresentado pela PGR que embasou a nova fase da operação deflagrada nesta quarta-feira (14) contra investigados no esquema de desvios no banco.

A ação, conduzida pela Polícia Federal, cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Vorcaro e a familiares, como pai, irmã e cunhado. Tanure e o investidor João Carlos Mansur, ex-presidente da gestora Reag Investimentos, também figuram entre os investigados.

Tanure foi abordado no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, quando embarcaria em um voo nacional. O celular dele foi apreendido. Policiais estiveram em sua residência, mas ele não foi encontrado no local. Mansur, por sua vez, foi interceptado quando se preparava para viajar a Curitiba, no Paraná. Segundo apuração da TV Globo, faria um deslocamento rápido e estava sem bagagem. Ele entregou celular e documentos e foi liberado.

José Carlos Mansur, presidente do Reag. Foto: reprodução

No total, a PF cumpre 42 mandados de busca e apreensão autorizados pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli, que também determinou o bloqueio de bens e valores acima de R$ 5,7 bilhões. A investigação apura suspeitas de organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro, a partir da concessão de créditos considerados fictícios pelo Banco Master.

A primeira fase da operação ocorreu em novembro do ano passado e levou à prisão de sete pessoas, inclusive Daniel Vorcaro. A estimativa da Polícia Federal é de que o volume das fraudes possa chegar a R$ 12 bilhões.

Quem é Nelson Tanure

Nascido em Salvador, em 1951, Nelson Tanure é formado em Administração de Empresas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Começou a carreira na empresa imobiliária criada pelo pai e, a partir da década de 1980, passou a investir em companhias em dificuldades financeiras, estratégia que marcou sua trajetória.

Entre os primeiros negócios de destaque está a participação na Sequip, empresa de engenharia ligada ao setor de petróleo. Depois, assumiu estaleiros em situação falimentar, como a Emaq, no Rio de Janeiro, que passou por reestruturação e foi vendida. Esse modelo foi repetido em diferentes setores ao longo dos anos.

Nos anos 2000, assumiu o controle de empresas tradicionais da imprensa, como o Jornal do Brasil e a Gazeta Mercantil, em um período de crise do setor. No mercado de petróleo, esteve à frente da então HRT, que deu origem à PetroRio, hoje PRIO. Em telecomunicações, participou da formação da Ligga Telecom, a partir da aquisição de ativos como Copel Telecom e Sercomtel.

Tanure também controla a Alliança Saúde, grupo de medicina diagnóstica com presença nacional, e é acionista da Light, distribuidora de energia do Rio de Janeiro. Seu portfólio inclui participações na Gafisa, TIM Brasil, Docas Investimentos e no fundo Saint German, acionista do Grupo Pão de Açúcar. No último ano, um fundo ligado ao empresário participou de negociações para assumir o controle da Braskem, iniciativa que não avançou.

Filho de pai espanhol e mãe brasileira, Tanure tem quatro filhos. Fora do ambiente empresarial, mantém ligação com a música clássica e a ópera, tendo sido vice-presidente da Orquestra Sinfônica Brasileira.

Nelson Tanure, empresário investigado pela PF. Foto: reprodução

Investigações e controvérsias

Apesar do perfil discreto, Tanure aparece com frequência no noticiário econômico por disputas societárias, recuperações judiciais e debates sobre governança. No ano passado, ele já havia sido alvo de investigação da Polícia Federal, aberta a pedido do Ministério Público Federal, para apurar se seria o controlador de fato do Banco Master sem autorização do Banco Central. À época, o empresário negou qualquer vínculo societário ou poder de controle sobre a instituição.

Em agosto de 2025, a Receita Federal deflagrou uma ampla operação contra esquemas de lavagem de dinheiro no mercado financeiro, envolvendo fintechs, fundos e gestoras. Tanure não foi formalmente acusado, mas o episódio reacendeu questionamentos sobre fundos associados ao seu nome.

No fim do ano passado, a Comissão de Valores Mobiliários reabriu a apuração sobre a oferta pública de aquisição da Alliança Saúde, que consolidou o controle da empresa. A análise se concentra no prazo para lançamento da oferta obrigatória aos minoritários. Tanure afirma que cumpriu a legislação.

Outra controvérsia envolve denúncia do Ministério Público Federal por suposto uso de informação privilegiada na compra da incorporadora Upcon pela Gafisa, entre 2019 e 2020. A defesa sustenta que não houve crime e que a operação foi aprovada pelos acionistas, sem apontamentos da CVM.

Mais recentemente, advogados do empresário pediram a remessa do processo da Gafisa ao Supremo Tribunal Federal, alegando conexão indireta com as investigações do Banco Master, hoje concentradas no STF sob relatoria do ministro Dias Toffoli.

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