“PIB privado x PIB público”: governo quer convencer gado de que pibinho de 1,1% foi “melhora substancial”. Por Raymundo Gomes

Paulo Guedes quer vender que o governo é um teco-teco de duas turbinas – Olivier Douliery – 25.nov.2019/AFP

POR RAYMUNDO GOMES

Talvez por acreditar que o gado engole tudo que lhe é servido,  o Ministério da Economia divulgou uma nota tentando vender o invendável: que o pífio crescimento de 1,1% do PIB brasileiro em 2019 é uma boa notícia.

Em nota técnica publicada na internet pela Secretaria de Política Econômica (SPE) do ministério de Paulo Guedes, o governo diz que houve uma “melhora substancial” na “composição do PIB”.

Por “composição”, entenda-se a separação do PIB (Produto Interno Bruto) em dois: o “PIB privado” e o “PIB governo”, que, como o nome indica, representam as fatias do PIB referentes, respectivamente, aos setores privado e público.

Como o “PIB privado” cresceu 1,8% e o “PIB governo” caiu 1,1%, a nota da SPE tenta fazer crer que “a economia passa a mostrar dinamismo independente do setor público.”

Convenientemente, a nota do ministério ignora que em outros anos o “PIB privado” foi superior ao “PIB governo” – só que ambos foram positivos. 

Em 2013 – na prática, último ano em que Eduardo Cunha, Aécio Neves et caterva deixaram Dilma Rousseff governar o país -, o PIB privado subiu 3,32%, e o PIB governo aumentou 1,81%, gerando um crescimento de exatos 3% do PIB nacional.

Obviamente, para o PIB privado crescer, não é preciso o PIB governo cair. Aliás, se ambos tivessem crescido, Guedes estaria soltando foguetes e nada diria sobre a “composição do PIB”.

Para culminar, a nota da SPE louva “a posição firme do governo sob a liderança do ministro Paulo Guedes e do apoio do presidente Jair Bolsonaro de manter a austeridade fiscal, a meta de resultado primário e do teto de gastos”.

Ou seja: numa só frase, Guedes faz um auto-elogio (já que o documento foi produzido por seu próprio ministério) e de quebra puxa o saco do chefe.

Guedes não é o único “spin doctor” do governo (nome que se dá nos EUA aos especialistas em torcer – “spin”, em inglês – os fatos para encaixá-los em suas teses). 

Tarcísio Freitas, ministro da Infraestrutura, proferiu esta pérola no portal de extrema direita Terça Livre:

— O pessoal diz assim – alguns, né? “Nossa, que crescimento pífio.” Não! Crescimento importante! Porque a gente tem que interpretar esse crescimento. O Brasil é um avião que tem duas turbinas: eu tenho a turbina do setor privado e tenho a turbina do setor público. A turbina do setor público andou com o reverso acionado. Então, nós encolhemos o setor público. 

E precisava encolher, em função da restrição fiscal. Do ponto de vista fiscal, era importante que encolhesse. Isso significa que a turbina do setor privado, ela funcionou já a 2,3%, 2.4%. Então isso está impulsionando o crescimento do Brasil. É um crescimento lastreado, já, no esforço privado. E isso é muito sustentável. Então a gente inicia uma trajetória de crescimento sustentável, perene. Não vai ser um voo de galinha, vai ser um voo de cruzeiro.

Entre outras mentiras no discurso acima, a “turbina do setor privado” não funcionou “a 2,4%”, e sim a 1,8%. E a “turbina do setor público” não “precisava encolher”. 

A famigerada emenda constitucional do Teto de Gastos, aprovada no governo Temer, não prevê encolhimento do Estado, apenas limita o crescimento das despesas. Nem Tarcísio deve acreditar na própria lorota.

A ver a lorota que será inventada pela SPE em 2021, se é que em março do ano que vem o ministro (e o presidente) ainda serão estes que estão aí.

A nota informativa do Ministério da Fazenda está disponível neste link.

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