
Tarcísio de Freitas reconheceu a vitória de Lula e disse ter recomendado a Flávio Bolsonaro que ficasse no Brasil. Quanto ao resultado da eleição presidencial, não cumpriu mais do que sua obrigação republicana. Quanto à tentativa singela de demover o candidato derrotado da ideia de fugir do país, a conduta de um homem público com anseios de estadista seria tomar providências para impedi-lo.
O isolamento de um indisfarçado golpista não torna democrático seu entorno.
O comportamento de Tarcísio de Freitas, no caso em tela, decorre do fato de que o cancelamento dos Bolsonaros abre-lhe, finalmente, as portas da candidatura em 2030. Salta aos olhos, em paralelo, a insistência de parte da mídia em pintar o governador paulista com as cores da moderação, o que, certamente, persistirá até o pleito presidencial de 2030. Faz tempo que ele é o preferido dos conservadores.
De hoje a outubro de 2030, a imprensa progressista precisa martelar o verdadeiro perfil de Tarcísio, um governante que revela toda sua truculência ideológica no campo da segurança pública.
Como noticiado pela pendular Folha de S. Paulo, as Polícias Militar e Civil paulistas, sob Tarcísio de Freitas, mata uma pessoa a cada 12 horas. Assim relatou o Berliner da Barão de Limeira em 29 de novembro: “A frequência (de mortes pela Polícia) é cerca de 70% maior que a registrada em 2022, último ano da gestão João Doria/Rodrigo Garcia, quando foram ampliadas medidas de redução da letalidade e o intervalo médio entre mortes era de 20 horas e 48 minutos. O levantamento da Folha considera registros de intervenções de policiais em serviço e de folga, conforme contabilizados pelo governo”.

Os números assustadores fazem jus a declarações pregressas do governador reeleito e apagam qualquer rastro de moderação do seu currículo político.
“Não existe combate ao crime organizado sem efeito colateral. Me desculpa, não tem”, declarou Tarcísio em agosto de 2023, ao defender a operação policial deflagrada após o assassinato de um policial militar no litoral paulista. Naquele momento, a ação já havia provocado pelo menos 14 mortes. Antes, em outubro de 2022, outra fala dele prenunciava o espírito chacinador: “A era de tratar o policial como suspeito e o bandido como parceiro vai acabar”.
Também é da lavra do provável ex-bolsonarista a infeliz sentença sobre o uso de câmeras corporais por policiais: “O que representa a câmera? É uma situação de deixar o policial em desvantagem em relação ao bandido. Com certeza [vou tirar]”.
Há ainda outra declaração do governador Tarcísio particularmente reveladora, feita em 8 de março de 2024, quando entidades de direitos humanos denunciaram a violência policial na Baixada Santista ao Conselho de Direitos Humanos da ONU: “Pode ir na ONU, pode ir na Liga da Justiça, no raio que o parta, que eu não tô nem aí”.
Infelizmente, mas sem surpresa alguma, esse senhor é comprado e vendido pela mídia conservadora como um gestor equilibrado. Privatista, agrada a “o mercado”, ainda que sobre a mais emblemática privatização do seu governo, a da Sabesp, restem indícios de sérias irregularidades.