
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) viaja nesta quarta-feira (6) para os Estados Unidos, onde será recebido por Donald Trump na quinta-feira (7), na Casa Branca, em Washington. A reunião terá dois eixos principais: o tarifaço contra produtos brasileiros e a cooperação no combate ao crime organizado. A agenda também deve incluir Pix, etanol, minerais críticos, terras raras, Venezuela, Cuba, Oriente Médio e eleições no Brasil.
Tarifas, Pix e comércio
O tarifaço é tratado pela diplomacia brasileira como o tema central do encontro. Em fevereiro, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou a tarifa de 50% imposta por Trump contra produtos brasileiros. Mesmo assim, o governo estadunidense manteve investigações sobre supostas práticas comerciais desleais do Brasil.
A apuração ocorre com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 dos Estados Unidos, um procedimento administrativo conduzido pelo próprio governo estadunidense. A investigação cita o Pix, o etanol, a venda de produtos falsificados, o suposto cerceamento a redes sociais estadunidenses, o desmatamento ilegal, a corrupção e o acesso ao mercado brasileiro.
Lula tem repetido que “ninguém” vai fazer o Brasil fazer mudanças no PIX. Apesar das críticas públicas de autoridades dos Estados Unidos, o governo brasileiro afirma que a ordem é negociar e tentar chegar a um consenso.
Crime organizado e narcotráfico
Outro ponto central será a cooperação contra o crime organizado. Lula levantou o tema em uma ligação com Trump em dezembro do ano passado e, depois disso, o Planalto enviou à Casa Branca um documento com propostas de atuação conjunta.
A ideia brasileira é ampliar o combate à lavagem de dinheiro, bloquear nos Estados Unidos ativos ilícitos de criminosos brasileiros e enfrentar o tráfico internacional de armas que abastece o PCC e o Comando Vermelho no Brasil. O governo também deve apresentar o programa Brasil Contra o Crime Organizado, que prevê ações federais e estaduais para recuperar áreas dominadas por facções e endurecer regras no sistema prisional.
PCC e Comando Vermelho
O Brasil tenta evitar que os Estados Unidos classifiquem o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Lula avalia que esse enquadramento poderia abrir caminho para medidas unilaterais e ameaçar a soberania nacional.
A discussão ganhou força dentro do governo Trump no início do ano. Para o Planalto, uma parceria formal contra o crime organizado serviria como resposta ao discurso estadunidense e mostraria que o Brasil tem interesse em enfrentar facções sem aceitar intervenções externas.

Minerais críticos e terras raras
Lula também deve tratar de minerais críticos e terras raras, tema estratégico para Washington. O Brasil detém uma das maiores reservas desses minerais no mundo e quer manter controle nacional sobre a exploração.
A posição brasileira é aceitar parcerias, mas sem exclusividade para nenhum país. O governo também quer garantir processamento em território nacional, transferência de tecnologia e desenvolvimento da indústria brasileira, evitando que o país seja apenas fornecedor de matéria-prima.
O Planalto monitora ainda acordos envolvendo os Estados Unidos e o governo de Goiás para exploração desses recursos. A avaliação federal é que iniciativas isoladas de estados não têm validade jurídica, já que o subsolo pertence à União.
Venezuela, Cuba e Oriente Médio
Na pauta geopolítica, Lula deve abordar a situação da Venezuela e buscar informações atualizadas sobre Nicolás Maduro e sua esposa, presos pelos Estados Unidos no início do ano. O Brasil classificou a ação como violação da soberania e do direito internacional.
A crise humanitária em Cuba também preocupa o governo brasileiro, que teme aumento da instabilidade regional. No Oriente Médio, Lula deve manter críticas aos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. O petista tem defendido negociações multilaterais, cobrado paz e criticado a perda de credibilidade da ONU.
Eleições no Brasil e bolsonarismo
Lula também deve tentar obter uma posição de neutralidade de Trump em relação à eleição brasileira. O objetivo não é buscar apoio, mas evitar que o presidente estadunidense sinalize preferência por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), possível candidato da oposição.
A reunião também tem peso político interno. Após a derrota do governo no Senado com a rejeição de Jorge Messias ao Supremo, o Planalto quer mostrar que Lula ainda tem força e prestígio internacional. Um auxiliar do presidente afirmou que o encontro pode ser “mais um ponto de partida do que um ponto de chegada” para a relação entre os dois países.